segunda-feira, 9 de março de 2026

Imenso como a realidade e infinito como a imaginação

tudo

quatro letras
quatro são seis letras
letras também seis
tudo é menor que o resto

mas não há nada maior que tudo
tudo é tão intocável, impossível, incontável
tudo é infinito e o poder do gigantismo opera em mim como a gravidade 

a gravidade do infinito me pesa
a gravidade de tudo é tão grande
tão pesarosa
tão pesadelo
tão pessimista
que tudo vem e me arrasta como onda em mar aberto
e me joga pra dentro de mim
raspado de areia
engolindo o sal
perdendo as roupas
tudo vem e tudo bem
aparentemente tudo bem

tudo vem e turbilhão
tudo bem no furacão
tudo tem uma verdade e uma infinidade de mentiras
e tudo é tanto que me arrasa

tudo são quatro letras e meu corpo não aguenta quatro letras
não aguenta amor não aguenta fome não aguenta nada
meu corpo não aguenta tudo e tudo é tão grande e me arrasta pro nada

me escondo porque logo sou nudez e meu espírito levanta a bandeira branca pedindo trégua
minha alma se decepciona porque ela também é infinita e também é tudo
mas meu corpo não aguenta e tudo bem porque tudo vem e é inevitável
a gravidade do infinito me pesa
a gravidade do sorriso é tudo
meu corpo sorri
e pelo jeito
tá tudo
bem

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Ele não morde!"

trâmites e processos
o botão da IA sempre ao lado
dizendo que tudo se resolve
em um clique

a vida burocratizada
e a intensa necessidade
de delegar a responsabilidade
da minha existência

tudo demanda agenda
e meu calendário confuso
meus dias contados e eu pronto
pro ano que começou
venha logo
acabar

sempre preso em episódios
que precisam terminar
para começar um novo

um ciclo sem fim
de esforço
sem a satisfação
de vencer

trâmites na mesa
processos
clientes
oportunidades

que vão minando
o meu modus vivendi
caos eterno e julgamento
onde eu sou juíz e réu
e todo passo a frente
me parece ré

modelos bem desenhados
para que eu organize
tudo

toda a sujeira da casa
sujeita apenas ao meu
belprazer
belíssimo prazer
de não sentir prazer
em nada

amor burocrático
cheio de horários
senão as gatas não se alimentam
e eu acabo esquecendo
de transar

não é meu corpo que não aguenta
embora ele não o faça
é minha mente que quebra em migalhas
e deixa-se voar os pedaços como poeira grossa à ventania

furacão de dores insensatas
trâmites e processos
o alarme me lembrando a auto estima
que eu sou só um merda

meu cabelo comprido demais está horrível
e não importa se eu esteja gostando dele

ele está horrível como todo o resto
a agenda me diz tudo está horrível
minhas costelas aparecendo e minha fadiga
me lembrando todo o tempo
que eu sou preguiçoso

ansiedade ganhou da depressão
e ansioso sigo jogando o jogo
da existência sem fim
eternidade violenta
passivo aos meus vícios

o calendário dizendo
que hoje não é dia de fumar
punheta não vale, tem que transar
e celular só funciona para ver
as horas porque só as horas
importam
você dormiu tarde
você tem que acordar cedo
você está adiantado pode respirar
você está atrasado porque respirou demais
o tempo todo me batendo nas costas
como se o tempo fosse meu pior inimigo
o tempo que passa o tempo que eu ganho o tempo que eu perco o tempo que passa e eu fico mais velho

e é tudo tão eterno
burocraticamente eterno

e nas entrelinhas da eternidade
entre o tempo de dedicação
e um desvio de atenção
vejo que os olhos da gata
combinam tão bem
com a cor da minha bermuda

me abraço nesse segundo
de olhos que me olham
num fundo tão banal

esperando que logo durma no meu colo
mas sabendo com certeza
que levantar daqui
é inevitável

assim como o segundo que vem
carregado de processos

e eu aqui

paralizado

feito criança

que tem medo

de cachorro