segunda-feira, 15 de junho de 2026

Nobel da Paz para o Presidente dos Estados Unidos da América

tem limite e tem fronteira
tem excesso e tem borda
tem cansaço e tem pressão
tem o que é meu
e o que é do mundo

limite fala de mim
do meu corpo cansado
da minha mente quebrada
do meu ódio insensato
do meu sorriso verdadeiro
da minha melancolia
e só do que eu sou capaz

limite é meu
e aos tatos
procuro
conhecer

fronteira fala do outro
de paredes que me apertam
e me modelam
e me colocam no meu lugar
sentado com medo sem voz
fala demais e eu grito para ser ouvido
fico sem voz e faço silêncio

a fronteira me cala
passa dos meus limites
me empurra pra dentro
de mim

e quando eu penso na palavra
fronteira me parece bonita
bonita que nem bandeira
mas prefiro ainda frontera

fronteira
como palavra
significa longe

muito longe

onde existe um moedor de carne
que todos os dias engole vidas humanas
e agora mesmo alguém deixou de existir
porque a belíssima palavra fronteira
existe

bandeira
pra mim
é flâmula ao vento
é tecido sem cor
pano sem significado
é só movimento

pois bem verdade
que bandeira informa fronteira
e eu percebo que a minha
não tem cor
nem significado

e que não a levanto
porque hoje penso
que preguiça de hastear
esse pano pesado
nessa ventania molhada

sou eu cego para os meus limites
não entendendo merda nenhuma

só sobrevivendo
hora após hora
enquanto eu sinto a pressão
as paredes os muros e a vontade de fumar
a vontade de sumir a vontade de ter vontade
as paredes e os muros e quero mudar

mudo
cego

as fronteiras me diminuem
porque eu não aceitei
os meus limites

terça-feira, 14 de abril de 2026

Guarda

guarda

esconde

protege

guarda



polícia

soldado

guarda

porque a verdade
pode te levar
pra um lugar
peculiar

veda os cantos da boca
veste o sorriso com todos os dentes
ventríloquo de alguém
vai ver só sou vazio

eu sempre achei que estava preso na vida
eu sempre me senti de alguma forma deslocado
eu sempre pensei que isso tudo não é pra mim

e já pensei também
que na verdade mesmo
eu só estava deslocado

fisicamente ou espiritualmente deslocado

o meu corpo e a minha alma em desarmonia

e quando eu falo desarmonia
é coisa física mesmo
o corpo em um lugar
e a alma um pouquinho deslocada

é pouca coisa
como uma palavra
ou um livro inteiro
mas pouco mais que eu consigo suportar

me sinto distante
longe daqui
do que eu vejo
do que eu sinto
e sobre sentir
falo sobre sentidos mesmo
os cinco

tudo me parece longínquo
minha boca parece tão longe
e tudo que eu falo não me pertence
ou o que me pertence se perde
daqui de longe
até a boca

e uma vez eu achava que era sono
outra vez eu achava que era depressão
por fim eu achava que era cansaço

é só lá longe

lá longe

e eu lutando todo esse tempo
pra ser eu
porque ser
seria suficiente
pra unir a porra toda

não é sobre ser
é só deslocamento
e eu não sei
exatamente
o que tá acontecendo
no mundo
e cada vez menos
eu ligo

porque antes eu queria só entender
o que vem e o que tá certo
entender como se fosse cientista existencial

porque se eu entendesse
vai ver eu conseguia unir a porra toda

precisa entender muita coisa
pra entender o todo
tudo é muito
suficiente pra explodir uma cabeça

e não entender nada?

faz o cérebro atrofiar
até que vire uma uva passa?

e eu fico aqui babando
como um homem vegetal
que não responde aos seus atos
e muito menos aos seus sentidos

mas que sente
lá em cima
lá fora
lá longe

lá longe
fora de mim

então guarda
não publica esse texto
não conta pra ninguém

guarda

esconde

protege

guarda



polícia

soldado

guarda

porque o conceito de verdade

é penitência

segunda-feira, 9 de março de 2026

Imenso como a realidade e infinito como a imaginação

tudo

quatro letras
quatro são seis letras
letras também seis
tudo é menor que o resto

mas não há nada maior que tudo
tudo é tão intocável, impossível, incontável
tudo é infinito e o poder do gigantismo opera em mim como a gravidade 

a gravidade do infinito me pesa
a gravidade de tudo é tão grande
tão pesarosa
tão pesadelo
tão pessimista
que tudo vem e me arrasta como onda em mar aberto
e me joga pra dentro de mim
raspado de areia
engolindo o sal
perdendo as roupas
tudo vem e tudo bem
aparentemente tudo bem

tudo vem e turbilhão
tudo bem no furacão
tudo tem uma verdade e uma infinidade de mentiras
e tudo é tanto que me arrasa

tudo são quatro letras e meu corpo não aguenta quatro letras
não aguenta amor não aguenta fome não aguenta nada
meu corpo não aguenta tudo e tudo é tão grande e me arrasta pro nada

me escondo porque logo sou nudez e meu espírito levanta a bandeira branca pedindo trégua
minha alma se decepciona porque ela também é infinita e também é tudo
mas meu corpo não aguenta e tudo bem porque tudo vem e é inevitável
a gravidade do infinito me pesa
a gravidade do sorriso é tudo
meu corpo sorri
e pelo jeito
tá tudo
bem

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Ele não morde!"

trâmites e processos
o botão da IA sempre ao lado
dizendo que tudo se resolve
em um clique

a vida burocratizada
e a intensa necessidade
de delegar a responsabilidade
da minha existência

tudo demanda agenda
e meu calendário confuso
meus dias contados e eu pronto
pro ano que começou
venha logo
acabar

sempre preso em episódios
que precisam terminar
para começar um novo

um ciclo sem fim
de esforço
sem a satisfação
de vencer

trâmites na mesa
processos
clientes
oportunidades

que vão minando
o meu modus vivendi
caos eterno e julgamento
onde eu sou juíz e réu
e todo passo a frente
me parece ré

modelos bem desenhados
para que eu organize
tudo

toda a sujeira da casa
sujeita apenas ao meu
belprazer
belíssimo prazer
de não sentir prazer
em nada

amor burocrático
cheio de horários
senão as gatas não se alimentam
e eu acabo esquecendo
de transar

não é meu corpo que não aguenta
embora ele não o faça
é minha mente que quebra em migalhas
e deixa-se voar os pedaços como poeira grossa à ventania

furacão de dores insensatas
trâmites e processos
o alarme me lembrando a auto estima
que eu sou só um merda

meu cabelo comprido demais está horrível
e não importa se eu esteja gostando dele

ele está horrível como todo o resto
a agenda me diz tudo está horrível
minhas costelas aparecendo e minha fadiga
me lembrando todo o tempo
que eu sou preguiçoso

ansiedade ganhou da depressão
e ansioso sigo jogando o jogo
da existência sem fim
eternidade violenta
passivo aos meus vícios

o calendário dizendo
que hoje não é dia de fumar
punheta não vale, tem que transar
e celular só funciona para ver
as horas porque só as horas
importam
você dormiu tarde
você tem que acordar cedo
você está adiantado pode respirar
você está atrasado porque respirou demais
o tempo todo me batendo nas costas
como se o tempo fosse meu pior inimigo
o tempo que passa o tempo que eu ganho o tempo que eu perco o tempo que passa e eu fico mais velho

e é tudo tão eterno
burocraticamente eterno

e nas entrelinhas da eternidade
entre o tempo de dedicação
e um desvio de atenção
vejo que os olhos da gata
combinam tão bem
com a cor da minha bermuda

me abraço nesse segundo
de olhos que me olham
num fundo tão banal

esperando que logo durma no meu colo
mas sabendo com certeza
que levantar daqui
é inevitável

assim como o segundo que vem
carregado de processos

e eu aqui

paralizado

feito criança

que tem medo

de cachorro

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O horror de amanhã ser mais um dia e a felicidade de acordar de novo

as palavras estão borbulhando
como se eu fosse obrigado a expor
sair daqui de dentro
mostrar pro universo
uma explosão de metáforas

e quem precisa de um poeta
senão o poeta
das próprias palavras
que saem
porque ficam presas nos cantos dos olhos
preso na garganta como grito contido

preso como se as paredes
que tanto amo
e chamo de casa
parecem masmorra
e as palavras essas borbulham

será que eu achei que podia me esconder por muito mais tempo?

meus olhos não aguentam as lágrimas que seguram
como se essas palavras presas viessem em água
e todos esses músculos segurando isso tudo
como se fita crepe
tentasse fazer segura
uma barragem fissurada

mas eram só palavras
sem poesia
sem poeta
sem moral nem história
sem prosa nem texto nem vida
só palavras e sentimentos grossos e com nome
porque antes disso tudo
nenhum sentimento tinha nome
e agora tudo tem nome
e eu me afundo nessas palavras

palavras substantivo
angústia
medo
pavor
anseio
ansiedade
felicidade
esperança
alegria
amor
catástrofe
catarse
estrofe
vazia
palavras
substantivo

e eu aparecendo pro mundo
e sorrindo
e vendendo
e saindo de uma muralha
e que saudades da muralha
e que saudades da muralha
e que saudades da muralha
e
que
saudades
da
mu
ra
lha

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

sempre tem depois, e esse depois chega e aperta os ossos como frio ardido

abri esse site como quem abre a geladeira
fechei o site como quem fecha a geladeira

abri de novo e escrevi essas duas frases

e li as três que assim se formaram
e eu tô vazio

de repente tudo ficou difícil
como sempre foi
e ficou num passado ilusório
uma perspectiva da pessoa
que eu poderia ser

que eu não sou

me decepciono
e acho isso tudo absolutamente
absoluto

minha pele vai vazando
como se buscasse o magma
quente do centro do mundo

eu queria acreditar em alguma coisa
mas eu não acredito em nada

é só uma geladeira vazia
sem po
e
sia

pulei pra não rimar
ar com mar
salto com sal

foi
como barco
que atravessa a linha do horizonte

e aqui sobra a maresia gelada
de um julho sem fim

acabo
em
MIM
vazia
poesia
palhaço
e a palha
de aço

boto o sonho pra tocar
que é meu álbum favorito
e eu fantasio
sem sentir culpa
porque dormir
também é
se cuidar

boa noite
já diria
william
bonner

domingo, 27 de julho de 2025

eu tinha palavras e eu resolvi colocar elas aqui

eu tinha palavras. e não bastam palavras para se fazer um escritor. eu tinha palavras e elas ficavam guardadas em algum lugar escondido. junto com os sentimentos e as sensações. a última vinha como maré e por vezes alta demais como ressaca violenta. o penúltimo vinha como explosão de bomba atômica. e por um segundo tudo explode e devasta. só me resta a radiação que transforma isso tudo em terra arrasada. as palavras, essas eu jogava fora junto com a fumaça do cigarro. elas vinham e eu baforava. as palavras iam pro céu sem nunca serem ditas. perdidas como suspiro e aqui o escritor deixa sua profissão para nunca ser profissional. a escrita vai embora, a palavra nunca é escrita, o verbo jamais falado. o silêncio, só sobra o silêncio. aterrador. pelo menos me aterra. o silêncio me aterra. como terra arrasada. assustador. para quem ouve. e para o meu peito. que fica vazio vazio. que nem bexiga murcha que não serve mais pra nada, além de se sentir com as mãos. o tato que enruga, que contrai, que me deixa mais perto do meu âmago. amargo âmago. eu tinha é que tirar umas férias, cair na graça de subir num foguete, deixar as minhas falhas e o que me faz sentir falho ali no chão, que o mundo vai continuar a ser. e eu serei integro com o mundo. acho que é assim que funciona. pelo menos foi assim quando subi num carro pra ir mil quilômetros daqui. sendo eu e só eu, como eu nunca fui antes. não foi um foguete, mas foi uma pausa e por uns dias eu fui salvo. ser salvo. eu nunca quis ser salvo. acho que eu queria mesmo era me afundar e colocar a culpa da merda toda em um planeta que não gosta de mim. vai ver eu só não queria responsabilidade. não queria ser adulto. não queria ser escritor de verdade. guardando tudo que é palavra pra eu sofrer sozinho, fingindo que era tudo sobre mim. eu queria ser escritor, às vezes. mas minhas palavras vão embora. fogem com a fumaça. sobem o céu, viram nuvem, depois chuva. e o mundo é regado pelas minhas letras. sem que ele entenda nada. só água e letras misturadas. silêncio e som de chuva em um céu azul. maré e bomba atômica num domingo quente de paz eterna.