terça-feira, 12 de março de 2013

Sobras

se me apaixono em toda esquina
é que não te amei o suficiente

terça-feira, 5 de março de 2013

Ali no centro

Acho que te vi hoje. E se te vi, era a mulher mais bonita do mundo.

sábado, 2 de março de 2013

Servidão

Ele fumava um charuto fedorento que adensava em fumaça roxa a atmosfera do escritório escuro, sentado como um rei no seu trono de couro. Mamava aquilo fazendo barulhos de criança chupando mamilo de plástico, uma mamadeira de fumo cubano. Um homem grandemente baixo e careca, parecendo um porco bem nutrido. Eu, sem me sentar havia muito tempo, segurava um monte de arquivos e relatórios e apresentava uma dívida. A dívida era dum cliente que ganhou um processo judiciário, no qual ele suga a herança da ex mulher numa série de justificativas complexamente vazias. O cara acabou sendo sequestrado um tempo depois. A mandante do sequestro era a própria ex mulher, mas nunca sequer imaginou-se a possibilidade d'aquela senhora tão boa e nobre enlutada pela perda dos seus bens mais nobres, os da família, machucar um pobre passarinho. Então o cara acaba tendo quase todo o dinheiro roubado sem que nem mesmo o banco percebesse o rombo monetário, sobrando apenas dois imóveis de alto padrão que ele se recusa a vender. Vive acampado numa mansão, sem grana pra pagar a gasolina do condomínio no subúrbio ao trabalho no centro.
- Você já ligou pra esse filho da puta?
- Ninguém consegue falar com ele. Parece que teve os telefones cortados.
- Cortados o caralho. Esse porco tá me fazendo de idiota.
Faço silêncio. Enquanto a grande cinza do charuto se quebra e cai no colo dele. "Caralho..."
- Essa sociedade está toda fodida...
- Com certeza está. Embora eu entenda que ele foi sequestrado.
- Aposto que foi armado. E se não foi, que ele vendesse aquela casa de campo. Que merda! Ah, não tem jeito de jogar uma escravidão por dívida em cima desse idiota? Tinha tanto trabalho prum vagabundo desses.
Dei um passo pra trás, tentando não esboçar nenhuma reação.
- Tá, chama o Cruzes.
O Cruzes era um sujeito imenso, com cara de idiota e óculos de idiota. Era uma mistura de detetive e capanga e assassino ou qualquer coisa que minha criatividade cinematográfica pudesse inventar. Só vestia regata, destoando de toda aquela corja de engravatados do escritório. Entra o Cruzes na sala, dando passos com os pés abertos para fora, numa marcha chapliniana militarizada, a barriga vazando do fim da regata e por cima das calças.
- Você vai descobrir o que esse cara tá fazendo. Converse com ele. Fale que estamos tentando ligar há uma caralhada de tempo. Quero o número novo dele. E o meu dinheiro!
O homem grande dá meia volta e sai da sala na mesma marchinha maquinal.
- Some daqui.
- Senhor?
- Pode ir pra casa.
- Boa noite, senhor.
De repente eu estou andando pelas ruas escuras com a sensação de que estou protegendo merdas enquanto sobrevivo. Paro no bar da esquina de casa, interrompendo meus conflitos éticos, e peço uma tequila e uma cerveja. Por lá fico, pois é mais importante viver.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

História de ninar

Sobe a subida, que de repente é ladeira e logo é morro e então colina e se posta lá, sentado no topo, no pico. Cruza as pernas de índio e sente o vento e as nuvens enquanto espera o céu ruir. Espera que lhe busquem, crendo que a sociedade sente sua falta e se arde em prantos de pura e sincera saudade. Espera até que lhe crescem pelos e logo estes pelos estão longos e lhe coçam as faces. E o mundo evolui entre guerras e doenças e morte e fome, globalizando a semente da ideia de que os seres humanos são iguais até que as cores e o que outrora fosse chamado de raça se unissem em uma só expressão, do desconhecimento das outras culturas à uma cultura só. Espera e suas unhas se espiralizam em um tom de casca de madeira e seus cabelos já descem a colina e sua fome já não cabe mais no mundo. Então ele acorda numa manhã qualquer e o céu se abre à uma figura extraordinária, um homem de quilômetros por quilômetros, de barbas brancas como as nuvens e a pele lisa como as nuvens e os olhos puros como as nuvens. Então ele se levanta e todos os seus ossos rangem como portões de aço, vazam suas roupas numa líquida queda, sem tocar qualquer centímetro de sua pele magra. E ele percebe que está muito maior e ele percebe que é uma árvore. Deus o vê, Deus o sente, Deus o ama. Ele se sente amado e quente. Tem saudade do corpo de uma mulher tocando cada poro de seu corpo. Por isso corta as unhas métricas e os cabelo e barba quilométricos e sorri a Deus. Deus lhe sorri de volta. Deus o ama, mas o amor de Deus não lhe é suficiente, então ele desce a colina e o morro e a ladeira e vê um mundo novo, na qual ninguém percebe sua nudez magérrima. Os humanos andam de lá para cá, absorvidos pela própria consciência. Ele sente frio. Senta no chão. Logo lhe dão umas moedas, uns trapos para vestir, uns restos pra comer, um canto pra dormir, uma vida pra viver. Então ele esquece de Deus e vive e sucede e ama e odeia e ganha e perde e finalmente se casa e tem um filho, ao passo que, em certa noite, quando o filho lhe pede uma história, o pai lhe conta essa.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Alma depenada

um tiro no pé ou
uma corda frouxa
no pescoço nu

penas
eu vejo penas
penas e luz

que são minhas
minhas penas
no meu chão

meu galinheiro
minha gaiola
minhas penas

a luz do sol
nas minhas asas
depenadas

já passa das oito
já passa da hora
de despertar

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Esperança

Quando me olho no espelho, não consigo mais manter o sorriso. O rosto disforme, como se a gravidade fizesse seu papel dobrado, triplicado, quadruplicado; sob os olhos de pálpebra caídas, olheiras roxas, dentro deles, a impressão da desilusão e o desespero de fracassar novamente. Consegui acreditar em princípios básicos de sobrevivência, procurando não desmoronar, mas na frente do espelho nada disso faz sentido. Meus princípios fundamentais sendo eclipsados pelos simples e inúteis princípios de sobrevivência, os quais não têm sido capazes de me manter vivo. A cega crença de que a paciência, e sobretudo ela, pudesse me levar aos meus novos e maiores sonhos caiu por terra. A paciência não me foi suficiente. Esperar todos os dias para um novo amanhã, como quem espera o retorno do Salvador ao mundo mortal, para assim seguir em frente e, mais do que qualquer outro desejo, conhecer.
Se eu pudesse simplesmente lutar. Ciente que a paciência não é minha única aliada. Lutar ao invés de esperar. Mas os músculos do meu rosto estão tão cansados. Ah, quanto tédio! Quanto tempo perdido! O que estive fazendo esse tempo todo? Não sei mais me apegar a deuses ou a santos, muito menos ao sentimento de Esperança. Já me enganaram muito com promessas de vitória. E eu só perdi. Só preciso me levantar de novo. Que cansaço. Que fracasso. Estou bem... Paciência...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ninfas


De repente tomava posse de matéria e vida a garota do sonho que tive naquela noite. Há exatos 128,9º da minha cadeira, em sentido anti horário com centro no tripé de um prato de 12" da bateria, sentava  o que podemos atribuir o nome de ninfa, em ritmo caolho de Camões de belezas surreais e divinas. No sonho, a ruiva saia da água, como se usando uma escada de degraus subaquáticos que a trazia cada vez mais perto de mim, do nível d'água aos dos meus olhos. E seus olhos fechados. E seus lábios carnudos se babando em água chegando cada vez mais próximos dos meus. No show, ela sentava ao lado da mãe, seu cabelo de fogo tinha volume e sua pele bronzeada num tom novo de laranja, de sardinhas pintadas de marrom. E toda essa harmonia casada com uma blusa azul clara. Seguindo a regra das duas cores pertencentes aos ruivos: verde e azul. E nesse quadro de beleza clássica, os olhos mais claros que o azul da blusa pulam em valsa para os integrantes da banda a tocar, como uma groupie apaixonada.
E a groupie realmente ama os caras. Ela canta e remexe na cadeira e dá largos sorriso ao vocalista. Nem vê que eu existo. Quis pendurar uma guitarra no pescoço, daí a ninfa me via, mas meu medo era se ela pedisse pra eu tocar. Sem guitarra, sem ninfa. Então a loira de braço enfaixado há 197,3º da minha cadeira me sorri mais de uma, duas, três, quinhentas vezes. Só que essa não é ninfa, só ninfeta, com seus lábios vermelhos de 17 anos e um olhar persistente.
Pois as ninfas perdem sua magia quando não tentam ser mágicas, ao contrário das ninfetas, que são sempre lindas e sorridentes. Me vê tão bem, sem tirar os olhos dos meus, sorri. Eu sei que o sorriso é pra mim. Eu sorrio de volta. Ela fica vermelha, da cor do batom. Eu também, mas sou moreno e não dá pra perceber. Estou quente e quero ela quente. Quem? Ninfa dos meus sonhos? Na próxima noite. Agora eu não posso.
Espero ela e as amigas na porta do teatro. Passa tempo. Elas aparecem. Todas rindo. Olá, meninas. Quais são os planos de hoje? Era beber. Esses jovens de hoje em dia, afogados em vodka e whisky e cerveja. Beber it is. Dou meu telefone e um sorriso largo. Ninguém me ligou, mas dormi uma noite boa.