Parei de escrever porque os meus textos não são mais atuais. Eles não cabem mais nesse mundo onde as pessoas só assistem a paisagens magníficas e se relacionam com pessoas extraordinárias e amam os amores mais profundos e intensos já vividos. Onde a fotografia parece arte, mas é simples exposição da beleza: sorrisos bonitos em pessoas bonitas em lugares bonitos. É que eu tenho vergonha. Quero é contar do beijo que não virou sexo, mas memória e desejo, e desejo não trabalha no pretérito. Quero escrever da paixão que virou um toque na cintura. Um toque, só um toque. Quero expôr os meus pânicos ilógicos e os meus fracassos e o futuro e o passado e o presente. A vida sem filtro. Sem tarjas, nem pudores nem censura. Sem censura. Nu com os pés na terra, molhado de suor e água de chuva. Sozinho ou acompanhado, mas sincero. E o atual não permite sinceridade. A sinceridade assusta e machuca e corrói.
O atual é o lado bom da vida. O positivismo e o sucesso. O atual é o bom emprego e o bom carro e a boa bebida. O atual é sociável numa vida noturna mais cara que o necessário. E no meu mundo, as pessoas não estão satisfeitas com seus empregos e se irritam com o trânsito e sofrem de insônia. No meu mundo os relacionamentos começam e acabam e começam e acabam incessantemente.
Tenho vergonha em expor quem finge ser feliz demais. É que eu já fui triste. A tristeza eu conheço bem. As pessoas andam tristes demais. Uma tristeza inadmissível. É época de ser feliz. Tenho vergonha de me expor demais. Então os textos que não escrevo se empilham em intermináveis colunas, afogando meu cérebro em muitas ideias. E nenhuma delas é "13 motivos para você amar a vida". Eu passo a suprimir essas colunas. E elas adensam até perder toda qualidade linguística. Até que os meus textos se tornam conhecimento. Guardam-se pra sempre como trechos que sabemos de cor, sem saber qual é o livro e quem é o autor. Fico me perguntando se as ideias são minhas ou se já as vi antes. É que não pus em papel e não trabalhei na produção do texto. Maleando as palavras até que representem o que quero representar. O texto cru se funde a mim e vira consciência. Me sinto consciente. E quanto mais consciente me sinto, mais quero suprimi-los, entendendo que o meu texto não é atual. Meu texto é sincero.
sexta-feira, 21 de março de 2014
segunda-feira, 10 de março de 2014
Formigas
você tá aí
sentado nessa tua cadeira pequena
que te dá dor nas costas
sentado todo torto em cima do computador
organizando em paleta
escalas de inteligência
negros e brancos
homens e mulheres
milionários, CEOs, diretores, gerentes, chefes de gabinete, secretárias, o pessoal da limpeza
alfabetizados e analfabetos
ateus e crentes
evangélicos
candomblecistas
marginais
mulheres solteiras
bombados
viados
sapatas
travecos
crackentos
cheiradores
maconheiros
viciados em sexo
em televisão
em amor
em solidão
suicidas
otimistas
bêbados ocasionais e profissionais
sãos
santas e safadas
mães solteiras
adultos virgens
rockeiros
metaleiros
funkeiros
vileiros
bonitos e feios
todos menos inteligente que você
você o mais negro
ou mais branco
você que sabe
o zero absoluto da tua escala
e tuas louças na pia
são banquetes de formiga
e teu bolo em cima
do microondas
é das formigas
e tuas migalhas e teu lixo e teus suspiros
são das formigas
uma longa fila delas indo
da cozinha
ao quarto
entre fendas
sobre a mesa
desenhando em linha mutante a tua parede
dentro de você
sem que te tirasse
dos pensamentos
a ideia que você
é o mais inteligente dos seres vivos.
sentado nessa tua cadeira pequena
que te dá dor nas costas
sentado todo torto em cima do computador
organizando em paleta
escalas de inteligência
negros e brancos
homens e mulheres
milionários, CEOs, diretores, gerentes, chefes de gabinete, secretárias, o pessoal da limpeza
alfabetizados e analfabetos
ateus e crentes
evangélicos
candomblecistas
marginais
mulheres solteiras
bombados
viados
sapatas
travecos
crackentos
cheiradores
maconheiros
viciados em sexo
em televisão
em amor
em solidão
suicidas
otimistas
bêbados ocasionais e profissionais
sãos
santas e safadas
mães solteiras
adultos virgens
rockeiros
metaleiros
funkeiros
vileiros
bonitos e feios
todos menos inteligente que você
você o mais negro
ou mais branco
você que sabe
o zero absoluto da tua escala
e tuas louças na pia
são banquetes de formiga
e teu bolo em cima
do microondas
é das formigas
e tuas migalhas e teu lixo e teus suspiros
são das formigas
uma longa fila delas indo
da cozinha
ao quarto
entre fendas
sobre a mesa
desenhando em linha mutante a tua parede
dentro de você
sem que te tirasse
dos pensamentos
a ideia que você
é o mais inteligente dos seres vivos.
domingo, 9 de março de 2014
AAAAH... Nós somos, lá de São Carlos...
Eu nunca escrevi sobre o CAASO. É que eu acho que precisaria explicar o que ele é. Ou porque eu gosto dos meus textos distantes. É que eu não quero pôr o nome de ninguém. Nem mesmo o meu nome. Minha literatura é assinada pelo nome de Thomas Verskitsch. Não quero que o leitor acredite que eu, Eduardo, passei pelos episódios que costumo narrar em prosa ou poesia, mesmo se eu realmente tenha participado deles.
Mas eu creio que falto com respeito com um centro acadêmico que se tornou personificado, alvo de um sentimento real de amor. Sempre me envergonhei de ser brasileiro, não preciso explicar o porque, portanto sempre me indignei com o sentimento patriótico. A tal ponto de considerar ridículo o patriotismo norte-americano. Eu não me sentiria orgulhoso de ser americano. E de repente eu me sinto patriota de algo que nem é pátria. Minha terra adotiva, minha cultura. Meus novos valores.
Sinceramente acho engraçado. Sinto o que sinto e sinto que é surreal. Quase idiótico. Foi difícil ir embora. Eu senti que terminei um namoro. Enlutado com a morte de um relacionamento. No auge do nosso relacionamento. Quando eu mais o amava e mais queria o bem dele. E foi tão longo o luto. Tão sozinho eu fiquei. Por tanto tempo. Paciente. Esperando. Eu disse que vou embora e devolvi as chaves. Mas eu estava lá. Eu não fui embora rápido assim. O fim do nosso namoro foram dois meses de processo de adaptação. Mas faz tanto tempo. Eu sou assim porque ele me fez assim.
Que difícil é esperar. Esperar por uma nova pátria. Ou os vestibulandos são brasileiros? Os vestibulandos estudam. Porque eu não apoio enfiar o semblante num pedaço de terra e dizer que é meu. Com o meu exército inteiro, esperando a ordem para atacar, matar, saquear e estuprar. Eu não apoio os exércitos. Pelo menos não o meu. Que difícil ver a morte acontecer lentamente e a vida acabar em três suspiros. As pessoas crescendo a minha volta.
Sem pátria. Dono do nada. Dono da paciência e do silêncio.Vestido do meu uniforme. Camiseta amarela. Diariamente. Sem esquecer que o fim do nosso relacionamento significa mudança, crescimento, evolução. Esperando um futuro fruto das minhas melhores escolhas. Sem negar raízes, sem perder identidade, sem esquecer o que é amor.
Raça CAASO.
Mas eu creio que falto com respeito com um centro acadêmico que se tornou personificado, alvo de um sentimento real de amor. Sempre me envergonhei de ser brasileiro, não preciso explicar o porque, portanto sempre me indignei com o sentimento patriótico. A tal ponto de considerar ridículo o patriotismo norte-americano. Eu não me sentiria orgulhoso de ser americano. E de repente eu me sinto patriota de algo que nem é pátria. Minha terra adotiva, minha cultura. Meus novos valores.
Sinceramente acho engraçado. Sinto o que sinto e sinto que é surreal. Quase idiótico. Foi difícil ir embora. Eu senti que terminei um namoro. Enlutado com a morte de um relacionamento. No auge do nosso relacionamento. Quando eu mais o amava e mais queria o bem dele. E foi tão longo o luto. Tão sozinho eu fiquei. Por tanto tempo. Paciente. Esperando. Eu disse que vou embora e devolvi as chaves. Mas eu estava lá. Eu não fui embora rápido assim. O fim do nosso namoro foram dois meses de processo de adaptação. Mas faz tanto tempo. Eu sou assim porque ele me fez assim.
Que difícil é esperar. Esperar por uma nova pátria. Ou os vestibulandos são brasileiros? Os vestibulandos estudam. Porque eu não apoio enfiar o semblante num pedaço de terra e dizer que é meu. Com o meu exército inteiro, esperando a ordem para atacar, matar, saquear e estuprar. Eu não apoio os exércitos. Pelo menos não o meu. Que difícil ver a morte acontecer lentamente e a vida acabar em três suspiros. As pessoas crescendo a minha volta.
Sem pátria. Dono do nada. Dono da paciência e do silêncio.Vestido do meu uniforme. Camiseta amarela. Diariamente. Sem esquecer que o fim do nosso relacionamento significa mudança, crescimento, evolução. Esperando um futuro fruto das minhas melhores escolhas. Sem negar raízes, sem perder identidade, sem esquecer o que é amor.
Raça CAASO.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Luto literário
Queria fazer poesia
e poder dormir o suficiente
e acordar
acordar nunca ficou mais fácil
mas mais importante
acordar é tão importante
Queria fazer poesia
mas só espero
a vida vai
e a vida vem
e eu espero
como quem joga com a sorte
e diz a Deus
dê-me um sinal!
mas os raios que rasgam o céu
e o último suspiro de vida
não são sinais
são só poesia
Queria fazer poesia
queria tomar um sol
queria transar por horas a fio
até que minha garganta fique seca
queria mergulhar no mar e esperar a correnteza me levar pra onde quer que o mar me leve
queria viver
acordar
e viver
queria dormir
até o tempo perder seu significado
até que ele se torne o bater das asas de uma mariposa
Queria fazer poesia
sinto frio
e é verão
e poder dormir o suficiente
e acordar
acordar nunca ficou mais fácil
mas mais importante
acordar é tão importante
Queria fazer poesia
mas só espero
a vida vai
e a vida vem
e eu espero
como quem joga com a sorte
e diz a Deus
dê-me um sinal!
mas os raios que rasgam o céu
e o último suspiro de vida
não são sinais
são só poesia
Queria fazer poesia
queria tomar um sol
queria transar por horas a fio
até que minha garganta fique seca
queria mergulhar no mar e esperar a correnteza me levar pra onde quer que o mar me leve
queria viver
acordar
e viver
queria dormir
até o tempo perder seu significado
até que ele se torne o bater das asas de uma mariposa
Queria fazer poesia
sinto frio
e é verão
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Comercialização do confessionário - Excerto Primeiro
- Bom dia. - Diz o psicólogo, sentado em sua grande poltrona, olhando suas anotações numa agenda que imitava couro de cobra.
- Bom dia, doutor. - Ele diz enquanto senta no modesto sofá dos pacientes.
- Como vai você?
- Vou bem. E você? - O psicólogo o fita por algum momento.
- Você não me parece bem.
Ele sorri enquanto olha para o colo, evitando os olhos do seu amigo particular.
- Vamos começar de novo. Como vai você?
- Vou bem... E... E o senhor?
- Estou bem. Mas por que você não está bem?
- Falei que estou bem.
- E eu falei que você não me parece bem.
Fez se um pouco de silêncio. O psicólogo olhava a alma dele por cima de óculos quadrados pendurados na ponta do nariz gigantesco.
- Acho que estou doente.
- O que tem?
- Não sei. Estou mal do estômago há dias.
- Foi num médico?
- Não, acho que não é nada.
- Está tomando alguma coisa?
- Não.
- Nem um omeprazol?
- Não.
- Por quê?
- Estou cansado...
- De quê?
- De tudo.
- Por exemplo?
- Sei lá. Eu me pego olhando pela janela...
- Hm...
- E eu percebo que eu estou lá. Olhando tudo aquilo. Sentindo o Sol queimar a minha pele.
- E o que você vê?
- A rua em que trabalho.
- E?
- E nada.
Faz-se mais um pouco de silêncio.
- Enfim, o ponto é que eu percebo que estou olhando pra janela. E o Sol está me queimando.
- O problema é o Sol?
- O problema é que eu percebo que estou na janela só depois de o Sol me queimar. Eu fico um longo período de tempo olhando lá fora.
- Olhando alguma coisa?
- Não sei... Acho que tudo.
- Pensando em alguma coisa?
- Não sei... Acho que nada.
- Esperando alguma coisa?
- Acho que sim...
- O quê?
- O fim do mundo, eu acho.
O médico anota alguma coisa em sua caderneta.
- Você acredita no fim do mundo? - Pergunta o paciente doutor entre duas frases anotadas.
- Não.
- E por que você o espera?
- Acho que queria que ele acabasse logo.
- Por quê?
- Tenho a impressão que não gosto dele.
- Não?
- Não. Nada me satisfaz.
- Anda insatisfeito?
- Ando. Ando demais. Meus pés doem. Meu estômago dói. Não aguento mais andar. - O psicólogo sorri. - É nessa hora que eu como. Como sem parar. Como um animal esperando o inverno mais frio dos últimos 48 anos.
- Depois de andar?
- Depois de sentir muita dor no estômago.
- Por que?
- Porque não quero comer antes.
- Não sente fome?
- As vezes sinto. Só não quero comer. Nenhuma comida me satisfaz.
- Nem um churrasco?
- Comeria um churrasco. - Os dois abrem sorrisos.
(...)
- Bom dia, doutor. - Ele diz enquanto senta no modesto sofá dos pacientes.
- Como vai você?
- Vou bem. E você? - O psicólogo o fita por algum momento.
- Você não me parece bem.
Ele sorri enquanto olha para o colo, evitando os olhos do seu amigo particular.
- Vamos começar de novo. Como vai você?
- Vou bem... E... E o senhor?
- Estou bem. Mas por que você não está bem?
- Falei que estou bem.
- E eu falei que você não me parece bem.
Fez se um pouco de silêncio. O psicólogo olhava a alma dele por cima de óculos quadrados pendurados na ponta do nariz gigantesco.
- Acho que estou doente.
- O que tem?
- Não sei. Estou mal do estômago há dias.
- Foi num médico?
- Não, acho que não é nada.
- Está tomando alguma coisa?
- Não.
- Nem um omeprazol?
- Não.
- Por quê?
- Estou cansado...
- De quê?
- De tudo.
- Por exemplo?
- Sei lá. Eu me pego olhando pela janela...
- Hm...
- E eu percebo que eu estou lá. Olhando tudo aquilo. Sentindo o Sol queimar a minha pele.
- E o que você vê?
- A rua em que trabalho.
- E?
- E nada.
Faz-se mais um pouco de silêncio.
- Enfim, o ponto é que eu percebo que estou olhando pra janela. E o Sol está me queimando.
- O problema é o Sol?
- O problema é que eu percebo que estou na janela só depois de o Sol me queimar. Eu fico um longo período de tempo olhando lá fora.
- Olhando alguma coisa?
- Não sei... Acho que tudo.
- Pensando em alguma coisa?
- Não sei... Acho que nada.
- Esperando alguma coisa?
- Acho que sim...
- O quê?
- O fim do mundo, eu acho.
O médico anota alguma coisa em sua caderneta.
- Você acredita no fim do mundo? - Pergunta o paciente doutor entre duas frases anotadas.
- Não.
- E por que você o espera?
- Acho que queria que ele acabasse logo.
- Por quê?
- Tenho a impressão que não gosto dele.
- Não?
- Não. Nada me satisfaz.
- Anda insatisfeito?
- Ando. Ando demais. Meus pés doem. Meu estômago dói. Não aguento mais andar. - O psicólogo sorri. - É nessa hora que eu como. Como sem parar. Como um animal esperando o inverno mais frio dos últimos 48 anos.
- Depois de andar?
- Depois de sentir muita dor no estômago.
- Por que?
- Porque não quero comer antes.
- Não sente fome?
- As vezes sinto. Só não quero comer. Nenhuma comida me satisfaz.
- Nem um churrasco?
- Comeria um churrasco. - Os dois abrem sorrisos.
(...)
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Armadilha social
Já faz algum tempo que me guardo os textos, as poesias e as palavras soltas. Nesse novo mundo, de informação rápida e tecnologia eficiente (nos limites que lhe cabe elogio), a curiosidade se confunde com o aprendizado e o conhecimento, com a espionagem. Pessoal e público são como figurativo e abstrato, que de longe são bem distintos, mas em alguns pontos se mesclam e se tornam uma coisa só, uma coisa confusa. Hoje eu não sei me expressar via rede social. O que é ideal? O que é exagero? O que é meu e o que é do mundo? O aniversário ou surpresa especial não pode passar batido, dá-lhe foto e um longo e caloroso texto que resume a essência de um amor, seja qual for a classificação deste. Todo mundo tem uma opinião sobre o tema do momento e todo mundo consome informação interessante que valha o compartilhamento.
Eu sou poeta. Sou literato. E quase todos os meus favoritos escritores só obtiveram a essência das suas próprias vidas através de desumana contorção, que sai impressa em tinta e papel ou pixel e tela. É dos poetas as sinceridades deslavadas. Por mim, me esvaziava os sentimentos e as sensações. As impressões e as faltas delas. As verdades e as mentiras. As expectativas e as decepções. Me esvaziava em pura sinceridade literária, com remetentes explícitos em entre linhas, dizendo em alto e bom tom tudo que eu tenho pra dizer pra você. Abria o peito sem esperar reflexo algum, sem nunca imaginar que depois daquele segundo, o do peito aberto, chegaria um próximo. Vomitava o coração naquele eterno último segundo, sem dor nem morte, nem prazer nem vida.
É que eu não sei o que é meu. O que é nosso. Pra mim as histórias nunca têm donos. Têm cheiro, têm sabor, têm cor, têm nome e têm voz. As vezes gritam, as vezes gemem, as vezes choram. Lágrimas sem dono, só com poesia.
Portanto me calo. Guardo-me inteiro como guardião de uma multidão de segredos. Os que contam o teu gosto, os que contam o teu cheiro, os que contam o meu peito. Só pra mim. Batendo asas pra lá em pra cá em intenso furacão.
Pequenos segredos
em forma de borboletas negras
e grandes desejos
como falcões vermelhos,
voando pelos meus órgãos
em sincronia com
os meus dedos
que se batem no ar
fingindo escrever
que preciso de você.
Mastigando a vontade
pra ver o tempo passar.
Eu sou poeta. Sou literato. E quase todos os meus favoritos escritores só obtiveram a essência das suas próprias vidas através de desumana contorção, que sai impressa em tinta e papel ou pixel e tela. É dos poetas as sinceridades deslavadas. Por mim, me esvaziava os sentimentos e as sensações. As impressões e as faltas delas. As verdades e as mentiras. As expectativas e as decepções. Me esvaziava em pura sinceridade literária, com remetentes explícitos em entre linhas, dizendo em alto e bom tom tudo que eu tenho pra dizer pra você. Abria o peito sem esperar reflexo algum, sem nunca imaginar que depois daquele segundo, o do peito aberto, chegaria um próximo. Vomitava o coração naquele eterno último segundo, sem dor nem morte, nem prazer nem vida.
É que eu não sei o que é meu. O que é nosso. Pra mim as histórias nunca têm donos. Têm cheiro, têm sabor, têm cor, têm nome e têm voz. As vezes gritam, as vezes gemem, as vezes choram. Lágrimas sem dono, só com poesia.
Portanto me calo. Guardo-me inteiro como guardião de uma multidão de segredos. Os que contam o teu gosto, os que contam o teu cheiro, os que contam o meu peito. Só pra mim. Batendo asas pra lá em pra cá em intenso furacão.
Pequenos segredos
em forma de borboletas negras
e grandes desejos
como falcões vermelhos,
voando pelos meus órgãos
em sincronia com
os meus dedos
que se batem no ar
fingindo escrever
que preciso de você.
Mastigando a vontade
pra ver o tempo passar.
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