sábado, 2 de abril de 2016

Dialética, retórica e introversão

As palavras já não saem mais. De nenhum jeito. Não há receita que as tirem daqui. Ficam girando numa massa espessa, se esbarrando e me fazendo me entender. O atrito das letras gerando ruídos harmônicos e desarmônicos, atiçando os meus olhos nas cores que vejo e as minhas narinas com os odores que inspiro. Indefinido, me conheço cada vez mais. Me reconheço só. Ninguém me lê. Ninguém me entende. Porque as palavras não formam orações, mas cânticos primitivos. Os nossos deuses já não são os mesmos. As nossas ideias não são mais as mesmas. Eu não digo. Me guardo. Penso em suicídio mais vezes do que me sinto ótimo. Mas estou bem. As palavras me confortam. Girando como uma estrela, confinando e consumindo combustível num centro gravitacional. O som da estrela girando, como um coração pulsando, como asas batendo, como o ronronar de um gato. Me deito, inspiro, expiro. As palavras me confortam, mas eu não sei escrever.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

onze quilômetros de profundidade

a loucura
está em todos
os meus genes

de todos os lados
ela me transborda
e eu vejo
o que todo mundo vê

e isso é forte

forte como cicatrizes
como luz
como todo o mundo

a loucura
quebrando
todos nós

afortunados são os
que convivem
tão bem com ela

e alguns convivem
e as mostram como troféus
e as brindam
e o
público aplaude

outros lutam
porque a insanidade
pode ser um parque de diversões
ou o
próprio inferno

a gente tenta
assumir
responsabilidades
e qualidades
esperando
ser um ser
melhor
mas está boiando
nesse mar de loucura

cabe ao louco entender
se se
diverte
no mar
com seus amigos

ou se
usa a esperança
pra sobreviver uma sobrevida
esperando encontrar um pedaço
de terra
e comida
e amor
e calma
enquanto

afunda

em


si


mesmo

sábado, 6 de junho de 2015

Imunidade imunda

Eu amo o mundo
e o mundo me ama

um asteróide passa de raspão
mas erra seu caminho
e a curva limite que é a borda da Terra
não passa de um contorno de um enorme alvo azul

eu amo o mundo
e o asteróide explode
toda a vida que me ama
Deus e outros tantos seres etéreos esquecidos

Os oceanos agitados pelo impacto
e as ondas varrendo a superfície do globo
e o vento carregado de poeira e sujeira
escondem o Sol que outrora fora Deus

eles me amam e eu sei disso

o Sol me frita
eu cozinho por dentro
meu estômago em ebulição

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O princípio do começo, sem meio; só fim

tuas mãos em torno do meu pescoço
com o carinho do começo e do fim
um breve suspiro de inteligência
atribuída às consequências de respirar de novo

minhas mãos ao relento
na espera de um futuro mais simples
apertadas tão forte para que eu nunca largue
o meu presente

a lógica das religiões esquecidas
nos detalhes inconscientes
de uma sociedade
que conserva a
morte

o dever de agradecer por um novo dia
um dia frio
um dia escuro
um dia velho

o sono que repele as responsabilidades
com o mesmo ardor que o fogo
traz a palma
queimada

o fim do mundo
que chega antes do café da manha
e vai embora
antes de eu sair de casa

o fim do mundo
que me espera aqui
quando chego tarde
e vejo que pouco mudou

injustiça e repercursão
de memórias que custam a ser esquecidas

tatuadas na pele como borboletas
e corações
e unicórnios
e arco-íris

cores pálidas de um tempo hostil
a sujeira de um mistério viciado

o medo de sentir de novo
o pavor
de sentir
o cheiro
da morte

abaulado sob contornos
incertos
focado num universo complexo
e sem luz

antes de eu respirar mais fundo
já perdi o folego
respiro mais raso
e expiro consciente

traduz tudo isso
em jardas de especulações
imprecisas

me diz
que vai ficar
tudo bem

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobrevivência e salvação

A sanidade silencia o sabor de sentir

sábado, 16 de maio de 2015

O arbitrário conceito de resiliência

ando pelos meus pertences no chão como
quem procura a pedra certa para se pisar
percebo o tempo rápido demais
mais rápido do que eu

acho que a mente está vazia
enquanto o turbilhão de sempre
não se esforça em girar
e tornar-se espesso de informação

não me canso da informação
que vem como a chuva torrencial
e transborda as minhas horas
com toneladas de responsabilidades

roupas
sujas
meias
usadas
mochila
libros (en español)
e livros
e tênis
sujo
e o chão sujo
e a pele suja
de pó e vida e ressurreição e dominação

trabalho a essência
antes da forma
a essência de tudo
me roubando o tempo todo

ladroes e cleptomaníacos
lendo tudo o que tem em mim

palavras
perdidas
no
tempo

piso com cuidado
escolhendo os músculos certos
pra prover todo o equilíbrio

que vence
o prazer
de viver

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O plebiscito dos plebeus

Somos uma horda de sobreviventes
avaliados como a nata do fracasso
julgados como o crime perfeito
o mistério sem solução

Um exército de humanos
aptos a respirar
e se alimentar
e pensar
e aprender
e a amar

Passo a passo num tortuoso
caminho
de bêbado
buscando a coerência
da existência
da vida

Merecem todo o respeito do mundo
atrapalhados pela meritocracia
revoltados pela coexistência
dos poderes

Todos indivíduos solitários
marchando em coletividades apertadas
prontos para reclamar para si
mais um dia