- Bom dia. - Diz o psicólogo, sentado em sua grande poltrona, olhando suas anotações numa agenda que imitava couro de cobra.
- Bom dia, doutor. - Ele diz enquanto senta no modesto sofá dos pacientes.
- Como vai você?
- Vou bem. E você? - O psicólogo o fita por algum momento.
- Você não me parece bem.
Ele sorri enquanto olha para o colo, evitando os olhos do seu amigo particular.
- Vamos começar de novo. Como vai você?
- Vou bem... E... E o senhor?
- Estou bem. Mas por que você não está bem?
- Falei que estou bem.
- E eu falei que você não me parece bem.
Fez se um pouco de silêncio. O psicólogo olhava a alma dele por cima de óculos quadrados pendurados na ponta do nariz gigantesco.
- Acho que estou doente.
- O que tem?
- Não sei. Estou mal do estômago há dias.
- Foi num médico?
- Não, acho que não é nada.
- Está tomando alguma coisa?
- Não.
- Nem um omeprazol?
- Não.
- Por quê?
- Estou cansado...
- De quê?
- De tudo.
- Por exemplo?
- Sei lá. Eu me pego olhando pela janela...
- Hm...
- E eu percebo que eu estou lá. Olhando tudo aquilo. Sentindo o Sol queimar a minha pele.
- E o que você vê?
- A rua em que trabalho.
- E?
- E nada.
Faz-se mais um pouco de silêncio.
- Enfim, o ponto é que eu percebo que estou olhando pra janela. E o Sol está me queimando.
- O problema é o Sol?
- O problema é que eu percebo que estou na janela só depois de o Sol me queimar. Eu fico um longo período de tempo olhando lá fora.
- Olhando alguma coisa?
- Não sei... Acho que tudo.
- Pensando em alguma coisa?
- Não sei... Acho que nada.
- Esperando alguma coisa?
- Acho que sim...
- O quê?
- O fim do mundo, eu acho.
O médico anota alguma coisa em sua caderneta.
- Você acredita no fim do mundo? - Pergunta o paciente doutor entre duas frases anotadas.
- Não.
- E por que você o espera?
- Acho que queria que ele acabasse logo.
- Por quê?
- Tenho a impressão que não gosto dele.
- Não?
- Não. Nada me satisfaz.
- Anda insatisfeito?
- Ando. Ando demais. Meus pés doem. Meu estômago dói. Não aguento mais andar. - O psicólogo sorri. - É nessa hora que eu como. Como sem parar. Como um animal esperando o inverno mais frio dos últimos 48 anos.
- Depois de andar?
- Depois de sentir muita dor no estômago.
- Por que?
- Porque não quero comer antes.
- Não sente fome?
- As vezes sinto. Só não quero comer. Nenhuma comida me satisfaz.
- Nem um churrasco?
- Comeria um churrasco. - Os dois abrem sorrisos.
(...)
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Armadilha social
Já faz algum tempo que me guardo os textos, as poesias e as palavras soltas. Nesse novo mundo, de informação rápida e tecnologia eficiente (nos limites que lhe cabe elogio), a curiosidade se confunde com o aprendizado e o conhecimento, com a espionagem. Pessoal e público são como figurativo e abstrato, que de longe são bem distintos, mas em alguns pontos se mesclam e se tornam uma coisa só, uma coisa confusa. Hoje eu não sei me expressar via rede social. O que é ideal? O que é exagero? O que é meu e o que é do mundo? O aniversário ou surpresa especial não pode passar batido, dá-lhe foto e um longo e caloroso texto que resume a essência de um amor, seja qual for a classificação deste. Todo mundo tem uma opinião sobre o tema do momento e todo mundo consome informação interessante que valha o compartilhamento.
Eu sou poeta. Sou literato. E quase todos os meus favoritos escritores só obtiveram a essência das suas próprias vidas através de desumana contorção, que sai impressa em tinta e papel ou pixel e tela. É dos poetas as sinceridades deslavadas. Por mim, me esvaziava os sentimentos e as sensações. As impressões e as faltas delas. As verdades e as mentiras. As expectativas e as decepções. Me esvaziava em pura sinceridade literária, com remetentes explícitos em entre linhas, dizendo em alto e bom tom tudo que eu tenho pra dizer pra você. Abria o peito sem esperar reflexo algum, sem nunca imaginar que depois daquele segundo, o do peito aberto, chegaria um próximo. Vomitava o coração naquele eterno último segundo, sem dor nem morte, nem prazer nem vida.
É que eu não sei o que é meu. O que é nosso. Pra mim as histórias nunca têm donos. Têm cheiro, têm sabor, têm cor, têm nome e têm voz. As vezes gritam, as vezes gemem, as vezes choram. Lágrimas sem dono, só com poesia.
Portanto me calo. Guardo-me inteiro como guardião de uma multidão de segredos. Os que contam o teu gosto, os que contam o teu cheiro, os que contam o meu peito. Só pra mim. Batendo asas pra lá em pra cá em intenso furacão.
Pequenos segredos
em forma de borboletas negras
e grandes desejos
como falcões vermelhos,
voando pelos meus órgãos
em sincronia com
os meus dedos
que se batem no ar
fingindo escrever
que preciso de você.
Mastigando a vontade
pra ver o tempo passar.
Eu sou poeta. Sou literato. E quase todos os meus favoritos escritores só obtiveram a essência das suas próprias vidas através de desumana contorção, que sai impressa em tinta e papel ou pixel e tela. É dos poetas as sinceridades deslavadas. Por mim, me esvaziava os sentimentos e as sensações. As impressões e as faltas delas. As verdades e as mentiras. As expectativas e as decepções. Me esvaziava em pura sinceridade literária, com remetentes explícitos em entre linhas, dizendo em alto e bom tom tudo que eu tenho pra dizer pra você. Abria o peito sem esperar reflexo algum, sem nunca imaginar que depois daquele segundo, o do peito aberto, chegaria um próximo. Vomitava o coração naquele eterno último segundo, sem dor nem morte, nem prazer nem vida.
É que eu não sei o que é meu. O que é nosso. Pra mim as histórias nunca têm donos. Têm cheiro, têm sabor, têm cor, têm nome e têm voz. As vezes gritam, as vezes gemem, as vezes choram. Lágrimas sem dono, só com poesia.
Portanto me calo. Guardo-me inteiro como guardião de uma multidão de segredos. Os que contam o teu gosto, os que contam o teu cheiro, os que contam o meu peito. Só pra mim. Batendo asas pra lá em pra cá em intenso furacão.
Pequenos segredos
em forma de borboletas negras
e grandes desejos
como falcões vermelhos,
voando pelos meus órgãos
em sincronia com
os meus dedos
que se batem no ar
fingindo escrever
que preciso de você.
Mastigando a vontade
pra ver o tempo passar.
sábado, 24 de agosto de 2013
(Des)Aceleração
as vezes eu paro
numa frenagem abrupta
que me machuca o corpo
tenho receio de acelerar de novo
a adrenalina
de aumentar
a velocidade
não me seduz
mais
ficar parado
é tão
bom
sabendo que
eu nunca
vou me machucar
de novo
o tédio me aponta os atrasos
os erros
as faltas
eu preciso acelerar
senão o mundo
acaba
sem eu nem
perceber
que preguiça
por mim
dormiria
dias
e
dias
e
dias
de
sonolência
eu bocejo
numa frenagem abrupta
que me machuca o corpo
tenho receio de acelerar de novo
a adrenalina
de aumentar
a velocidade
não me seduz
mais
ficar parado
é tão
bom
sabendo que
eu nunca
vou me machucar
de novo
o tédio me aponta os atrasos
os erros
as faltas
eu preciso acelerar
senão o mundo
acaba
sem eu nem
perceber
que preguiça
por mim
dormiria
dias
e
dias
e
dias
de
sonolência
eu bocejo
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
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