ando pelos meus pertences no chão como
quem procura a pedra certa para se pisar
percebo o tempo rápido demais
mais rápido do que eu
acho que a mente está vazia
enquanto o turbilhão de sempre
não se esforça em girar
e tornar-se espesso de informação
não me canso da informação
que vem como a chuva torrencial
e transborda as minhas horas
com toneladas de responsabilidades
roupas
sujas
meias
usadas
mochila
libros (en español)
e livros
e tênis
sujo
e o chão sujo
e a pele suja
de pó e vida e ressurreição e dominação
trabalho a essência
antes da forma
a essência de tudo
me roubando o tempo todo
ladroes e cleptomaníacos
lendo tudo o que tem em mim
palavras
perdidas
no
tempo
piso com cuidado
escolhendo os músculos certos
pra prover todo o equilíbrio
que vence
o prazer
de viver
sábado, 16 de maio de 2015
sexta-feira, 8 de maio de 2015
O plebiscito dos plebeus
Somos uma horda de sobreviventes
avaliados como a nata do fracasso
julgados como o crime perfeito
o mistério sem solução
Um exército de humanos
aptos a respirar
e se alimentar
e pensar
e aprender
e a amar
Passo a passo num tortuoso
caminho
de bêbado
buscando a coerência
da existência
da vida
Merecem todo o respeito do mundo
atrapalhados pela meritocracia
revoltados pela coexistência
dos poderes
Todos indivíduos solitários
marchando em coletividades apertadas
prontos para reclamar para si
mais um dia
avaliados como a nata do fracasso
julgados como o crime perfeito
o mistério sem solução
Um exército de humanos
aptos a respirar
e se alimentar
e pensar
e aprender
e a amar
Passo a passo num tortuoso
caminho
de bêbado
buscando a coerência
da existência
da vida
Merecem todo o respeito do mundo
atrapalhados pela meritocracia
revoltados pela coexistência
dos poderes
Todos indivíduos solitários
marchando em coletividades apertadas
prontos para reclamar para si
mais um dia
sábado, 25 de abril de 2015
Karma
Achei que fui eu.
"- Ele para no terminal?
- Não.
- Não vai pro TISAN?
- Santo Antônio."
Um casal tira as suas dúvidas.
Ele é rude. Aparentemente puto com o atraso que tais perguntas vão gerar lá no ponto final.
"- Mas vai pro terminal?
- Sim, claro."
Ele resmunga. Eu ouço ele resmungar. Eu sinto ele resmungar. O resmungo dele arranha minhas costas. Eu explodo como uma estrela. Longe e silenciosa explosão. Não viro pra ele.
"- Porra."
Ele diz bem alto, para que eu e o casal ouçamos.
O semáforo fecha.
Eu abro meu sorriso e cumprimento o cobrador. Converso e extraio dele toda a simpatia que seus jovens bigodes são capazes de fornecer.
Me sinto bem.
Achei que fui eu.
E numa rápida conferência, vejo que meu próximo ônibus está marcado para daqui uma hora e meia.
Sorrio de novo.
As maldades se multiplicando como um vírus.
Achei que fui eu.
"- Ele para no terminal?
- Não.
- Não vai pro TISAN?
- Santo Antônio."
Um casal tira as suas dúvidas.
Ele é rude. Aparentemente puto com o atraso que tais perguntas vão gerar lá no ponto final.
"- Mas vai pro terminal?
- Sim, claro."
Ele resmunga. Eu ouço ele resmungar. Eu sinto ele resmungar. O resmungo dele arranha minhas costas. Eu explodo como uma estrela. Longe e silenciosa explosão. Não viro pra ele.
"- Porra."
Ele diz bem alto, para que eu e o casal ouçamos.
O semáforo fecha.
Eu abro meu sorriso e cumprimento o cobrador. Converso e extraio dele toda a simpatia que seus jovens bigodes são capazes de fornecer.
Me sinto bem.
Achei que fui eu.
E numa rápida conferência, vejo que meu próximo ônibus está marcado para daqui uma hora e meia.
Sorrio de novo.
As maldades se multiplicando como um vírus.
Achei que fui eu.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Fidelidade
ela me olha uma vez.
eu nao desvio o olhar.
o meu olhar veio primeiro
depois veio ela
e numa aparente inconveniência
burlamos uma importante lei que impede que dois objetos ocupem o mesmo espaço.
o meu olhar
e o olhar dela
e por experiência em lutar por minhas terras
ela desvia o olhar.
olha de novo.
sorri.
passa a catraca.
passa um senhor
passa um cabeludo
passam pessoas até que o espaço se esvazie
e o movimento se torne paisagem
a vejo outra vez, agora no terminal
ela é bonita
estudo o tempo
e o trajeto até meu conforto
entramos no mesmo ônibus
ela primeiro
eu atrás
ela me procura
ela me encontra
ela sorri
respondo com um sorriso de olhos
sento lá no fundo.
me pergunto se quebro outras leis
e acostumado com a qualidade de ser um condolecente foragido
organizo em sistemas complexos quais sao prioridade
tudo legislado
certos e errados
sob leis e decretos e retificaçoes facilmente transmutáveis
respeitando dogmas e princípios
infelizmente os da sociedade
e daí me faço criminoso lá e cá
esqueci a cor dos cabelos dela
dela a do ônibus
fico com vontade dos cabelos
ora escuros como a sombra daqui na Lua
ora claros como a penumbra que nos deixa achar que estamos imaginando o resto do astro
será que manter o olhar e responder o sorriso me faz um criminoso?
nao consigo me concentrar no próprio livro.
os cabelos
ora grossos e pesados
ora finos e leves
imagino ela nas festas com amigos
os amigos dela
os meus amigos
imagino ela bêbada
gritando alto
gesticulando pra cima
aumentando sua pequenez
transformando-se numa fada barulhenta
uma fada de loucura
e imagino todos aqueles que sentem o que eu sinto quando eu a vejo
guardadas as devidas proporçoes
imagino o olhar sincero
a simpatia sutil
imagino ela como uma fada
sorrindo com orgulho de ser bela
bela como ela nunca precisou querer ser
mas que um continente inteiro de pessoas gostaria de ser
voando de lá pra cá
com movimentos graciosos feito uma dança de uma gata que se retira por falta de interesse
sorrio com essa ideia
fico achando que ela sabe ser bela
e sabe sobreviver nesse mundo estranho
fico achando que minha mente e a dela estao em plena sincronia
mas quem pode dizer o que pensa o outro?
vai ver ela nao voa como uma fada
nao seduz sem querer
nao sorri de orgulho
vai ver se ofende
e foge
e empurra
e sente saudades de mim
saudades como um protetor
nao queria esse tipo de saudades
queria a saudade boa
estou lendo o mesmo paragrafo pela quarta vez.
diz sobre o infinito. o deserto e o fundo do mar como o infinito.
concluo que o infinito é Deus
e que talvez Deus nao seja infinito
a ponte brilha
sempre brilha
como uma grande árvore de natal
que brilha o ano todo
vai ver somos nós
e nós estamos concluindo coisas erradas sobre a evoluçao da sociedade
nós
quem somos nós?
só vejo elevados que se expandem com o pulsar da cidade
as vias vazias se entortando pra chegar no mesmo ponto
uma corrida de células sedentárias de armadura até os dentes
vermelho e verde e carro e gente
quem somos nós?
pelo menos os elevados passam sobre as árvores
é claro,
elas devem se sentir amaldiçoadas por conviver com uma quantidade de sombra que de repente nao respeita mais a rotaçao dos astros
mas antes um ser amaldiçoado do que um nao ser
nao sei
vejo as árvores sendo destroçadas por escavadeiras
que estupram a terra
e planificam o monte
uma faixa para onibus
um progresso sustentável
nao ser
maiores veias
para mais células
chego a conclusao que nao gostaria de ver o que imaginei
ver no sentido de assistir
repleto de visao e consciência
e muito menos pequena ou severamente inconsciente,
a imaginaçao é a semente para todo fruto de pensamento
admito que gostaria que ela fosse a fada
mas nao na minha frente
longe de mim
enquanto eu nao puder me abraçar gostosamente aos braços dela
enquanto isso
deixo elas sorrirem
e elogiarem
e gostarem de mim
é o meu ponto
surfando em pé
vejo que a menina ainda está lá
e seus cabelos sao castanho claros
eu nao desvio o olhar.
o meu olhar veio primeiro
depois veio ela
e numa aparente inconveniência
burlamos uma importante lei que impede que dois objetos ocupem o mesmo espaço.
o meu olhar
e o olhar dela
e por experiência em lutar por minhas terras
ela desvia o olhar.
olha de novo.
sorri.
passa a catraca.
passa um senhor
passa um cabeludo
passam pessoas até que o espaço se esvazie
e o movimento se torne paisagem
a vejo outra vez, agora no terminal
ela é bonita
estudo o tempo
e o trajeto até meu conforto
entramos no mesmo ônibus
ela primeiro
eu atrás
ela me procura
ela me encontra
ela sorri
respondo com um sorriso de olhos
sento lá no fundo.
me pergunto se quebro outras leis
e acostumado com a qualidade de ser um condolecente foragido
organizo em sistemas complexos quais sao prioridade
tudo legislado
certos e errados
sob leis e decretos e retificaçoes facilmente transmutáveis
respeitando dogmas e princípios
infelizmente os da sociedade
e daí me faço criminoso lá e cá
esqueci a cor dos cabelos dela
dela a do ônibus
fico com vontade dos cabelos
ora escuros como a sombra daqui na Lua
ora claros como a penumbra que nos deixa achar que estamos imaginando o resto do astro
será que manter o olhar e responder o sorriso me faz um criminoso?
nao consigo me concentrar no próprio livro.
os cabelos
ora grossos e pesados
ora finos e leves
imagino ela nas festas com amigos
os amigos dela
os meus amigos
imagino ela bêbada
gritando alto
gesticulando pra cima
aumentando sua pequenez
transformando-se numa fada barulhenta
uma fada de loucura
e imagino todos aqueles que sentem o que eu sinto quando eu a vejo
guardadas as devidas proporçoes
imagino o olhar sincero
a simpatia sutil
imagino ela como uma fada
sorrindo com orgulho de ser bela
bela como ela nunca precisou querer ser
mas que um continente inteiro de pessoas gostaria de ser
voando de lá pra cá
com movimentos graciosos feito uma dança de uma gata que se retira por falta de interesse
sorrio com essa ideia
fico achando que ela sabe ser bela
e sabe sobreviver nesse mundo estranho
fico achando que minha mente e a dela estao em plena sincronia
mas quem pode dizer o que pensa o outro?
vai ver ela nao voa como uma fada
nao seduz sem querer
nao sorri de orgulho
vai ver se ofende
e foge
e empurra
e sente saudades de mim
saudades como um protetor
nao queria esse tipo de saudades
queria a saudade boa
estou lendo o mesmo paragrafo pela quarta vez.
diz sobre o infinito. o deserto e o fundo do mar como o infinito.
concluo que o infinito é Deus
e que talvez Deus nao seja infinito
a ponte brilha
sempre brilha
como uma grande árvore de natal
que brilha o ano todo
vai ver somos nós
e nós estamos concluindo coisas erradas sobre a evoluçao da sociedade
nós
quem somos nós?
só vejo elevados que se expandem com o pulsar da cidade
as vias vazias se entortando pra chegar no mesmo ponto
uma corrida de células sedentárias de armadura até os dentes
vermelho e verde e carro e gente
quem somos nós?
pelo menos os elevados passam sobre as árvores
é claro,
elas devem se sentir amaldiçoadas por conviver com uma quantidade de sombra que de repente nao respeita mais a rotaçao dos astros
mas antes um ser amaldiçoado do que um nao ser
nao sei
vejo as árvores sendo destroçadas por escavadeiras
que estupram a terra
e planificam o monte
uma faixa para onibus
um progresso sustentável
nao ser
maiores veias
para mais células
chego a conclusao que nao gostaria de ver o que imaginei
ver no sentido de assistir
repleto de visao e consciência
e muito menos pequena ou severamente inconsciente,
a imaginaçao é a semente para todo fruto de pensamento
admito que gostaria que ela fosse a fada
mas nao na minha frente
longe de mim
enquanto eu nao puder me abraçar gostosamente aos braços dela
enquanto isso
deixo elas sorrirem
e elogiarem
e gostarem de mim
é o meu ponto
surfando em pé
vejo que a menina ainda está lá
e seus cabelos sao castanho claros
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Mega Sena
O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos tons de cinza. Desde não sei quando, procuro adivinhar quando o som vai chegar. Raio. Tempo. Trovão. E no segundo certo, eu diria: Klapaucius e o trovão soaria com a mesma força e poder que o furioso bordão "RAIOS E TROVÕES!" do Dr. Victor, tio de Nino, aquele do cabelo em pé. Mas as coincidências nunca tornaram possível o meu ato. De coincidência em coincidência, agigantando um espaço amostral, tal como um hábito comum de errar. Vai ver é por isso que não entendo dos pavores de raios e trovões. Raio. Tempo. Trovão. E o meu hábito de errar. KLAPAUCIUS! Não que eu estivesse esperando 1000 Simoleões na minha conta. A questão é crer ou não na sorte. E eu deixei de crer há muito tempo. Brinco com ela, sabendo do meu importante laço com o azar.
Certa vez emprestei o carro de um grande amigo. Os carros só emprestamos pros grandes amigos e pros amores e pra família. Pois no primeiro cruzamento, numa espécie de Klapaucius invertido, exatamente como um raio sob sol a pino, um motoqueiro atravessa a ponta do carro, saltitando três ou quatro vezes no seu touro mecânico prateado, até cair um tombo feio. As coincidências costumam ser assim por aqui. - 1000 $ subindo da minha cabeça como recompensa por existir ali.
Pois os céus em monótonos tons de cinza. Fico esperando a chuva. Não sou o maior fã das chuvas. É verão e eu já estou agasalhado. O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos sons de cinza.
Em voz baixa, falo um lento e imperceptível klapaucius. O mundo vibra. Meus tímpanos e a minha caixa toráxica vibram. A estrutura do prédio e as suas janelas vibram. Eu sorrio. Eu agradeço.
Certa vez emprestei o carro de um grande amigo. Os carros só emprestamos pros grandes amigos e pros amores e pra família. Pois no primeiro cruzamento, numa espécie de Klapaucius invertido, exatamente como um raio sob sol a pino, um motoqueiro atravessa a ponta do carro, saltitando três ou quatro vezes no seu touro mecânico prateado, até cair um tombo feio. As coincidências costumam ser assim por aqui. - 1000 $ subindo da minha cabeça como recompensa por existir ali.
Pois os céus em monótonos tons de cinza. Fico esperando a chuva. Não sou o maior fã das chuvas. É verão e eu já estou agasalhado. O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos sons de cinza.
Em voz baixa, falo um lento e imperceptível klapaucius. O mundo vibra. Meus tímpanos e a minha caixa toráxica vibram. A estrutura do prédio e as suas janelas vibram. Eu sorrio. Eu agradeço.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Aquele usual problema do Projeto Apollo
Foi-se meu tempo.
Fui visitar a Lua e me perdi.
Virei na esquina errada.
Os suspiros me atropelam.
As minhas ideias não me protegem.
Meu estômago arde.
Não sei dizer se é fome.
Ou vontade de morrer.
Sede.
De amor.
De sexo.
De água.
As ruas eu não conheço.
Sei que sou uma barata.
Vivendo pra comer de restos.
A Lua diz que me espera.
Perdi o meu assento.
Nem sei mais como sorrir.
Lá foi o meu tempo.
Fiquei preso no engarrafamento.
Com meus braços em cruz, apertados com corda.
O importante em receber chibatadas é nunca chorar.
O choro é o fim do orgulho.
O orgulho é a mãe das ideias.
Mente vazia.
Mentecapto.
Mentiroso. Sorri gostoso.
Mente cheia.
Transbordam fatos
e esquecemos do número exato de cigarros fumados.
E quem começou com essa merda toda.
Cristovão Colombo.
Índios escravos. Negros escravos. Brancos escravos. Meus avós escravos e meus pais escravos.
Escrevo. Escravo.
Escarro.
Estrago.
Fecho os olhos e busco voltar no passado.
Mudar tudo desde o começo.
Cortar o cordão umbilical antes da hora.
Sem comida.
Sem vida.
Não sei em quem dói.
Se em Jesus.
Omolú.
Ou São Sebastião.
Se é só azia, ou gastrite,
cirrose
câncer
ou morte.
Fecho os olhos e quero voltar pro futuro.
Que futuro é esse que não existe?
Erraram a data. Me jogaram pra longe.
Errei a Lua.
Entrei na
esquina
errada.
Esperança.
Fui visitar a Lua e me perdi.
Virei na esquina errada.
Os suspiros me atropelam.
As minhas ideias não me protegem.
Meu estômago arde.
Não sei dizer se é fome.
Ou vontade de morrer.
Sede.
De amor.
De sexo.
De água.
As ruas eu não conheço.
Sei que sou uma barata.
Vivendo pra comer de restos.
A Lua diz que me espera.
Perdi o meu assento.
Nem sei mais como sorrir.
Lá foi o meu tempo.
Fiquei preso no engarrafamento.
Com meus braços em cruz, apertados com corda.
O importante em receber chibatadas é nunca chorar.
O choro é o fim do orgulho.
O orgulho é a mãe das ideias.
Mente vazia.
Mentecapto.
Mentiroso. Sorri gostoso.
Mente cheia.
Transbordam fatos
e esquecemos do número exato de cigarros fumados.
E quem começou com essa merda toda.
Cristovão Colombo.
Índios escravos. Negros escravos. Brancos escravos. Meus avós escravos e meus pais escravos.
Escrevo. Escravo.
Escarro.
Estrago.
Fecho os olhos e busco voltar no passado.
Mudar tudo desde o começo.
Cortar o cordão umbilical antes da hora.
Sem comida.
Sem vida.
Não sei em quem dói.
Se em Jesus.
Omolú.
Ou São Sebastião.
Se é só azia, ou gastrite,
cirrose
câncer
ou morte.
Fecho os olhos e quero voltar pro futuro.
Que futuro é esse que não existe?
Erraram a data. Me jogaram pra longe.
Errei a Lua.
Entrei na
esquina
errada.
Esperança.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Desfibrilador
Enquanto eu cagava, um mosquito desapercebido, sem notar a minha imensa existência, passa voando pela minha frente. Sem pensar, dou-lhe um rápido tapa que resulta numa queda em espiral mais leve que o ar. O mosquito cai morto, num cemitério de insetos e aracnídeos que, sem querer, tiveram acidentais encontros com a vida humana.
A vida continua. Pelo menos a minha. E de mais um porrilhão de seres no universo. Pobre mosquitinho. Me pergunto se ele é um inimigo à minha espécie ou se é só mais um bicho que dividia a casa comigo. Será que sugam o sangue humano? Transmitem doenças? Eu tusso como um cachorro. Minhas cordas vocais e minha laringe e meu esôfago e mais outras coisas dentro do meu crânio tremem num tom grave. A tosse reverbera o microscópico coraçãozinho do mosquito, e como uma etérea massagem cardíaca, apaga a luz à qual a minúscula alma voaria até encontrar seus zilhões de parentes. Sem a luz do fim do túnel para o mosquito seguir a morte, mexe uma asa e logo outra e se põe a voar um voo desastrado. Eu, o mais novo veterinário de insetos, salvei uma vida com uma tosse canina que põe em cheque as decisões de Deus. Quem morre ou quem vive depende da tosse que me vier. Tento pisar nele, no ar, mas meu chinelo de vô só desvia ele da trajetória inicial. Ele cai no chão e insiste em viver. Levanta um segundo voo de esperança e finalmente piso sobre ele. A morte. Coitado. Será que era um inimigo da raça humana? Ou será que dividia a casa comigo?
A vida continua. Pelo menos a minha. E de mais um porrilhão de seres no universo. Pobre mosquitinho. Me pergunto se ele é um inimigo à minha espécie ou se é só mais um bicho que dividia a casa comigo. Será que sugam o sangue humano? Transmitem doenças? Eu tusso como um cachorro. Minhas cordas vocais e minha laringe e meu esôfago e mais outras coisas dentro do meu crânio tremem num tom grave. A tosse reverbera o microscópico coraçãozinho do mosquito, e como uma etérea massagem cardíaca, apaga a luz à qual a minúscula alma voaria até encontrar seus zilhões de parentes. Sem a luz do fim do túnel para o mosquito seguir a morte, mexe uma asa e logo outra e se põe a voar um voo desastrado. Eu, o mais novo veterinário de insetos, salvei uma vida com uma tosse canina que põe em cheque as decisões de Deus. Quem morre ou quem vive depende da tosse que me vier. Tento pisar nele, no ar, mas meu chinelo de vô só desvia ele da trajetória inicial. Ele cai no chão e insiste em viver. Levanta um segundo voo de esperança e finalmente piso sobre ele. A morte. Coitado. Será que era um inimigo da raça humana? Ou será que dividia a casa comigo?
Assinar:
Postagens (Atom)