Veja só já era domingo. A luz azul do seriado pausado já mais forte que a luz violeta do céu. A luz azul pintando o rosto dela de baixo pra cima e o violeta no cenário inteiro. A semana foi pesada. E já começou outra. A luz e o calor dos nossos nós entrelaçados, agarrados como um fone de ouvido que sai do bolso no final do dia. Uma hora tudo começou a dar certo e era sábado. E ali era domingo e a composição daquilo tudo eternizava aquele segundo. Só um segundo, porque quando não fazemos nada, o tempo para e aquilo dura pra sempre. E assim vamos engordando nosso banco de horas, com todos esses momentos de nada. Um banco de horas do tempo que parou. O nada dura pra sempre e naquele segundo me sinto pleno.
Quantas vezes não senti essa plenitude? A vida é feita disso, de segundos plenos, que se alongam por minutos e às vezes horas. E a gente esquece desse sentimento complexo porque a vida corre e por Deus, esse inferno é frio. O nada se estende sorridente entre os nossos olhos. O violeta vai se apagando e ela está cada vez mais iluminada. Eu tenho medo que esse segundo acabe, aperto ela mais forte. Essa hora era hora de estar na casa da vó. Fez um dia lindo hoje. Teve churrasco e agora a família assiste o Faustão na sala, as mulheres esperam a Dança dos Famosos, as crianças, as que não estão mais no quintal porque está esfriando, esperam as Videocassetadas. Não há homens ali. A gente nunca sabe onde eles estão. Normalmente dormindo. Normalmente bêbados. Mas nem sempre. Às vezes estão fumando e conversando perto da churrasqueira apagando. Às vezes ainda na cervejinha. A vó tá fazendo bolinho de chuva e o cheiro de fritura chega quente da cozinha.
Obrigado por ser essa pessoa maravilhosa. - Ela diz.
Meu coração explode.
Eu volto feliz e quente.
Aperto mais forte e dou uma chuva de beijos.
O segundo acaba.
Ainda bem, era domingo.
domingo, 8 de setembro de 2019
quarta-feira, 24 de julho de 2019
Quase nada
não sei se eram palavras que eu queria colocar aqui
nem fatos nem histórias nem realidade alguma
só um pouco de cor e forma e textura
cinza como fumaça
volátil como fumaça
fumaça como fumaça
aquilo que cresce
e some transparente
hoje é quarta feira
de um dia azul
mas eu queria escrever aqui
um cinza bem claro
quase branco
volátil
que cresce
e some
toda poesia ficou presa entre nós dois
e aqui não sobrou palavra
só cinza
volátil
quase branco
nem fatos nem histórias nem realidade alguma
só um pouco de cor e forma e textura
cinza como fumaça
volátil como fumaça
fumaça como fumaça
aquilo que cresce
e some transparente
hoje é quarta feira
de um dia azul
mas eu queria escrever aqui
um cinza bem claro
quase branco
volátil
que cresce
e some
toda poesia ficou presa entre nós dois
e aqui não sobrou palavra
só cinza
volátil
quase branco
segunda-feira, 29 de abril de 2019
O precipício do terceiro andar
tempo
de novo
girando
e dando voltas
no mesmo
derreter
sempre
passo a passo
mesmas palavras
vício contínuo
interminável
eternidade
em ciclo
a mesma coisa
tudo de novo
caio como moeda
e quico
e giro
e perco valor
valendo sempre
a mesma migalha
imperador disso aqui
o trocado no bolso da carteira
que existe só pra ajudar
quem vive nas ruas
quem se droga nas calçadas
quem tem troco ruim
ajudar e nada mais
e numa torre de migalhas
a gente salva o mundo
transformando um passado cruel
em futuro utópico
distopia grave
o meu Brasil implodindo
minha terra tem terra
e terra custa e terra vale
e de migalhas em migalhas
quico em moedas duras
que me marcam o corpo magro
migalhas e um futuro vazio
meu estômago cheio de histórias obscuras
e arroto bem grave os absurdos de existir
caindo espero o tempo acabar
o infinito mede as profundidades dos meus vazios
de escada e trena caio e treino
treino pra cair de novo
gravidade
mais forte
sempre casada
com minhas pálpebras
cansadas
escrevo em rascunho
o meu papel aqui dentro
e o rascunho virou lixo
junto com o meu contrato
vitalício
vivo e respiro
trocas gasosas
a todo vapor
e a pele quente
borbulhando gotas de amor
de novo
girando
e dando voltas
no mesmo
derreter
sempre
passo a passo
mesmas palavras
vício contínuo
interminável
eternidade
em ciclo
a mesma coisa
tudo de novo
caio como moeda
e quico
e giro
e perco valor
valendo sempre
a mesma migalha
imperador disso aqui
o trocado no bolso da carteira
que existe só pra ajudar
quem vive nas ruas
quem se droga nas calçadas
quem tem troco ruim
ajudar e nada mais
e numa torre de migalhas
a gente salva o mundo
transformando um passado cruel
em futuro utópico
distopia grave
o meu Brasil implodindo
minha terra tem terra
e terra custa e terra vale
e de migalhas em migalhas
quico em moedas duras
que me marcam o corpo magro
migalhas e um futuro vazio
meu estômago cheio de histórias obscuras
e arroto bem grave os absurdos de existir
caindo espero o tempo acabar
o infinito mede as profundidades dos meus vazios
de escada e trena caio e treino
treino pra cair de novo
gravidade
mais forte
sempre casada
com minhas pálpebras
cansadas
escrevo em rascunho
o meu papel aqui dentro
e o rascunho virou lixo
junto com o meu contrato
vitalício
vivo e respiro
trocas gasosas
a todo vapor
e a pele quente
borbulhando gotas de amor
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Senhor Serafim
Abro as portas com as duas mãos e recebo com alívio o ar frio do ar condicionado. Levanto os óculos escuros dos olhos para a cabeça, segurando o meu cabelo como uma tiara. Vale a pena apresentar a minha imagem para informação posterior: tênis cinza e vermelho sujos, meias soquetes, bermuda branca, camiseta marrom com uma mandala estampada, barba até o fim do pescoço com bigodes fazendo volta para cima, cabelos até os ombros e óculos escuros de aro dourado e lente espelhada violeta.
Duas mulheres loiras terminavam de serem atendidas. A recepcionista me cumprimenta. Respondo onde moro e os pepinos que temos que resolver. Eu uso a palavra pepino. Ela me chama pelo nome do inquilino, o meu tio Serafim. Então, naquele instante, me tornei o Senhor Serafim. Ela falava muito e eu perdi a oportunidade de dizer "Meu nome é Thomas, Serafim é o meu tio", então virei senhor. Por um momento me perguntei se todos os clientes homens eram chamados de senhor, e se eles tinham o hábito de enfrentar diariamente a desagradável confusão entre senhora e senhorita. Ou talvez ela sabia que eu era um senhor nascido no oitavo dia do mês de agosto de 1948. Era pouco provável. Mas podia ser, quem sabe? Ela me trata como um garoto, mas um garoto bem pequeno. E ela é bem educada. Será que vai me perguntar se quero um pirulito? Será que todos os clientes são tratados como bebês? Pelo que vi com as mulheres loiras, sim.
Ela me pede pra que converse com o Israel, no andar superior. Anota coisas numa folha branca cheia de anotações. Números e palavras abreviadas e círculos e divisões que separavam aquele rascunho todo rasurado em caneta azul. "Gostei dessa tua organização". Disse sinceramente, e imediatamente arrependido por parecer crítico. "Ah, eu preciso anotar as coisas rápido pra passar pro computador, então rabisco aqui antes". Elogiei, pra deixar claro que sim, eu aprovo essa bagunça, eu compreendo porque é assim que raciocínio também.
Eu subo as escadas e encontro Israel. Exatamente o tipo de pessoa que você espera encontrar em uma imobiliária: um cara forte, barba curta e meticulosamente desenhada, cabelo curto com um sutil topete em gel (se o cara for menos vaidoso do que eu espero que ele seja) e olhos claros. Ele também me trata como uma criança. Também me chama de Serafim. Parece que é política da empresa. Mas dessa vez, faço questão de dizer "Meu nome é Thomas, Serafim é o meu tio". E conto dos meus problemas. Para cada problema, lhe digo "Não sei se eu posso arrumar, chamar alguém, ou é com vocês." e ele respondia ou "Como eu posso explicar pra você?", quando era minha responsabilidade, ou "Ok, vou falar com o proprietário pra ver se ele autoriza a reforma", como se o proprietário fosse o pai de todos. E quando era minha responsabilidade, eu não deixava ele responder a própria pergunta retórica e já respondia "Tá, eu posso fazer" e ele respondia que sim. Foi simpático, embora não tenha me oferecido um pirulito. No entanto, se despediu assim "Boa tarde, senhor Serafim, gostaria de ajuda pra descer?" Agradeci e desci, um pouco confuso com a pergunta. Aqui é importante notar que a escada não tinha mais que 40 cm de largura, uma escada justíssima, norma aqui é lenda, pois enfim, não cabiam dois seres humanos e logo me perguntei como funcionam as gentilezas aqui.
Ao descer reencontro Andrea, a recepcionista simpática, negra e de sorriso largo. Só percebi que se chamava Andrea quando li seu pingente no pescoço. Acho engraçado quando as pessoas usam seus nomes em pingentes, como coleiras de cães ou crachás de funcionários. Nesse caso, em se tratando do segundo, funcionou muito bem. "Agora vamos para a contabilidade, senhor Serafim. É ali no prédio ao lado. Deixa eu abrir a porta pra você." E o calor ressurge como uma memória há muito esquecida e que assusta quando volta a mente. "Esse calor está horrível, né?", ela me pergunta. "Viver fora do ar condicionado tá impossível. E as pessoas dizem que viver no litoral é bom pra pressão, mas eu fico derretendo e minha pressão lá no pé." Ela ri. Abre a porta pra mim. "Você consegue subir escadas, senhor Serafim? Ah, é verdade, você subiu as escadas de lá. Então é só subir e a Catarina está esperando por você." Ela virou as costas e nesse momento eu tive a plena certeza de que ela me via um senhor. E se todos eles soubessem que eu era um idoso? Eu seria um idoso extremamente vaidoso com esse óculos escuro e cabelos e barba pintados. Ou será que eu só estava magro demais? Ao invés de prestar atenção no óculos e no cabelo e na barba, prestou atenção nos meus ossos dos joelhos e braços? Talvez se preocupou mais com essas olheiras fundas e essas bochechas magras e ossudas. Talvez. Talvez nada disso. Pois qual personagem é melhor, senão aqueles que são recortes de pessoas reais? E onde há melhor história senão nas que existem tons de verdade disfarçadas em ficção? Talvez eu estivesse pensando demais, pronto pra próxima vez que ficasse sem luz e eu pudesse escrever alguma coisa. Pois foi um bom plano. A luz não volta, bebo um corote que desce rasgando, a história segue sem sentido ou valor. E estava decidido, eu seria Serafim e seria eu também.
Catarina e seu parceiro de escritório me receberam com amabilidade. Catarina claramente estava nervosa, mas era simpática. Até eu lhe contar o meu problema. "Catarina, perdoe esse velho, mas eu simplesmente tinha esquecido que isso era uma obrigação". Ela olhou pros dois anos de contas que eu não tinha recebido rateio algum com algo entre raiva e desespero. "Senhor Serafim. Eu nem sei o que fazer. O que falar. É muita coisa. Eu tenho muito trabalho. Eu ia fechar o mês hoje, mas vou precisar fechar amanhã. Por um acaso o senhor está se mudando?" E eu respondo que não, que sou viúvo e moro com meu filho mais novo, mas ele vai casar e se mudar com a esposa, e que gosto muito do apartamento e embora minha filha quisesse que eu me mudasse, digo que fico. "Ah, senhor Serafim. Você precisa ficar atento e mandar isso pra mim. Você sabe usar o whats? É só mandar pra mim uma foto. É só uma vez por mês". Eu começo a rir internamente, mas ao invés disso, peço perdão, digo que receber esse dinheiro não é minha maior preocupação, que só tinha percebido o meu erro e que vim informar o erro. "Desculpe por te dar tanto trabalho, Catarina". Ela se acalma e sorri. Aproveito a deixa e dou tchau.
O ônibus fazia a curva quando eu sai da loja, levantei o braço e dei passos rápidos pra chegar com ele no ponto. Olhei o assento preferencial e sorri. Sentei no detrás e derreti até o meu ponto.
Duas mulheres loiras terminavam de serem atendidas. A recepcionista me cumprimenta. Respondo onde moro e os pepinos que temos que resolver. Eu uso a palavra pepino. Ela me chama pelo nome do inquilino, o meu tio Serafim. Então, naquele instante, me tornei o Senhor Serafim. Ela falava muito e eu perdi a oportunidade de dizer "Meu nome é Thomas, Serafim é o meu tio", então virei senhor. Por um momento me perguntei se todos os clientes homens eram chamados de senhor, e se eles tinham o hábito de enfrentar diariamente a desagradável confusão entre senhora e senhorita. Ou talvez ela sabia que eu era um senhor nascido no oitavo dia do mês de agosto de 1948. Era pouco provável. Mas podia ser, quem sabe? Ela me trata como um garoto, mas um garoto bem pequeno. E ela é bem educada. Será que vai me perguntar se quero um pirulito? Será que todos os clientes são tratados como bebês? Pelo que vi com as mulheres loiras, sim.
Ela me pede pra que converse com o Israel, no andar superior. Anota coisas numa folha branca cheia de anotações. Números e palavras abreviadas e círculos e divisões que separavam aquele rascunho todo rasurado em caneta azul. "Gostei dessa tua organização". Disse sinceramente, e imediatamente arrependido por parecer crítico. "Ah, eu preciso anotar as coisas rápido pra passar pro computador, então rabisco aqui antes". Elogiei, pra deixar claro que sim, eu aprovo essa bagunça, eu compreendo porque é assim que raciocínio também.
Eu subo as escadas e encontro Israel. Exatamente o tipo de pessoa que você espera encontrar em uma imobiliária: um cara forte, barba curta e meticulosamente desenhada, cabelo curto com um sutil topete em gel (se o cara for menos vaidoso do que eu espero que ele seja) e olhos claros. Ele também me trata como uma criança. Também me chama de Serafim. Parece que é política da empresa. Mas dessa vez, faço questão de dizer "Meu nome é Thomas, Serafim é o meu tio". E conto dos meus problemas. Para cada problema, lhe digo "Não sei se eu posso arrumar, chamar alguém, ou é com vocês." e ele respondia ou "Como eu posso explicar pra você?", quando era minha responsabilidade, ou "Ok, vou falar com o proprietário pra ver se ele autoriza a reforma", como se o proprietário fosse o pai de todos. E quando era minha responsabilidade, eu não deixava ele responder a própria pergunta retórica e já respondia "Tá, eu posso fazer" e ele respondia que sim. Foi simpático, embora não tenha me oferecido um pirulito. No entanto, se despediu assim "Boa tarde, senhor Serafim, gostaria de ajuda pra descer?" Agradeci e desci, um pouco confuso com a pergunta. Aqui é importante notar que a escada não tinha mais que 40 cm de largura, uma escada justíssima, norma aqui é lenda, pois enfim, não cabiam dois seres humanos e logo me perguntei como funcionam as gentilezas aqui.
Ao descer reencontro Andrea, a recepcionista simpática, negra e de sorriso largo. Só percebi que se chamava Andrea quando li seu pingente no pescoço. Acho engraçado quando as pessoas usam seus nomes em pingentes, como coleiras de cães ou crachás de funcionários. Nesse caso, em se tratando do segundo, funcionou muito bem. "Agora vamos para a contabilidade, senhor Serafim. É ali no prédio ao lado. Deixa eu abrir a porta pra você." E o calor ressurge como uma memória há muito esquecida e que assusta quando volta a mente. "Esse calor está horrível, né?", ela me pergunta. "Viver fora do ar condicionado tá impossível. E as pessoas dizem que viver no litoral é bom pra pressão, mas eu fico derretendo e minha pressão lá no pé." Ela ri. Abre a porta pra mim. "Você consegue subir escadas, senhor Serafim? Ah, é verdade, você subiu as escadas de lá. Então é só subir e a Catarina está esperando por você." Ela virou as costas e nesse momento eu tive a plena certeza de que ela me via um senhor. E se todos eles soubessem que eu era um idoso? Eu seria um idoso extremamente vaidoso com esse óculos escuro e cabelos e barba pintados. Ou será que eu só estava magro demais? Ao invés de prestar atenção no óculos e no cabelo e na barba, prestou atenção nos meus ossos dos joelhos e braços? Talvez se preocupou mais com essas olheiras fundas e essas bochechas magras e ossudas. Talvez. Talvez nada disso. Pois qual personagem é melhor, senão aqueles que são recortes de pessoas reais? E onde há melhor história senão nas que existem tons de verdade disfarçadas em ficção? Talvez eu estivesse pensando demais, pronto pra próxima vez que ficasse sem luz e eu pudesse escrever alguma coisa. Pois foi um bom plano. A luz não volta, bebo um corote que desce rasgando, a história segue sem sentido ou valor. E estava decidido, eu seria Serafim e seria eu também.
Catarina e seu parceiro de escritório me receberam com amabilidade. Catarina claramente estava nervosa, mas era simpática. Até eu lhe contar o meu problema. "Catarina, perdoe esse velho, mas eu simplesmente tinha esquecido que isso era uma obrigação". Ela olhou pros dois anos de contas que eu não tinha recebido rateio algum com algo entre raiva e desespero. "Senhor Serafim. Eu nem sei o que fazer. O que falar. É muita coisa. Eu tenho muito trabalho. Eu ia fechar o mês hoje, mas vou precisar fechar amanhã. Por um acaso o senhor está se mudando?" E eu respondo que não, que sou viúvo e moro com meu filho mais novo, mas ele vai casar e se mudar com a esposa, e que gosto muito do apartamento e embora minha filha quisesse que eu me mudasse, digo que fico. "Ah, senhor Serafim. Você precisa ficar atento e mandar isso pra mim. Você sabe usar o whats? É só mandar pra mim uma foto. É só uma vez por mês". Eu começo a rir internamente, mas ao invés disso, peço perdão, digo que receber esse dinheiro não é minha maior preocupação, que só tinha percebido o meu erro e que vim informar o erro. "Desculpe por te dar tanto trabalho, Catarina". Ela se acalma e sorri. Aproveito a deixa e dou tchau.
O ônibus fazia a curva quando eu sai da loja, levantei o braço e dei passos rápidos pra chegar com ele no ponto. Olhei o assento preferencial e sorri. Sentei no detrás e derreti até o meu ponto.
sábado, 1 de dezembro de 2018
Ticket, por favor
às vezes eu só queria ser mais triste
pra justificar a minha tristeza
eu queria que as coisas fossem piores
que meu corpo não aguentasse mais um segundo
e que tudo ao meu entorno fosse um grande
caos insuportável e minhas veias pulsassem de ódio por
tudo isso aí
as coisas são suportáveis
a vida parece uma eterna tortura
mas uma tortura suportável
uma afta uma patela deslocada
um pós cirúrgico complicado
nada machuca o suficiente
pra ultrapassar o absurdo
porque o absurdo tá aí todo dia
e essa porra toda é confusa pra caralho
eu queria chorar
e gemer em desespero sincero
a vida não é cruel assim
a gente chora de vez em quando
e ora ou outra quebra porque não nos sobra
nada além de quebrar
mas nunca é ruim o suficiente
como ossos recalcificamos
e tortos e cicatrizados seguimos
cada vez mais frágeis
e cada vez mais mais fortes
e qualquer coisa entre
e vale admitir nessa poesia
que pouco quero ser feliz
a alegria me parece efusiva
como os dedos que trombam
na quina do móvel
por um segundo aquilo é grande como a própria existência
mas logo não é armazenada nem mesmo como memória
ou será que subjugo a alegria
ao transformá-la em uma pequeneza
cotidiana?
a alegria e a felicidade e esses conceitos coloridos
ficam todos confusos e logo não sei se são ao menos reais
vai ver sou pessimista demais
e só vejo a merda toda
vazando e gotejando em tudo que é pleno
e por favor me perdoe se pareço
exclusivamente pessimista
como um poço de sincero pesar e
coisas escuras e humilhantes
sou alegre também e vejo cor nas coisas
e às vezes confundo paixão e amor
amizade e amor
solidão e amor
e ora ou outra o amor sou todo eu e
só o amor importa
o mundo segue e a gente não é
pouco mais que o sobe e desce de
humores incompreendidos
como a maré que muda à luz da lua
reclamo
e fumo
e bebo
e sei que não é assim
que compro meu ingresso
para o Céu
pra justificar a minha tristeza
eu queria que as coisas fossem piores
que meu corpo não aguentasse mais um segundo
e que tudo ao meu entorno fosse um grande
caos insuportável e minhas veias pulsassem de ódio por
tudo isso aí
as coisas são suportáveis
a vida parece uma eterna tortura
mas uma tortura suportável
uma afta uma patela deslocada
um pós cirúrgico complicado
nada machuca o suficiente
pra ultrapassar o absurdo
porque o absurdo tá aí todo dia
e essa porra toda é confusa pra caralho
eu queria chorar
e gemer em desespero sincero
a vida não é cruel assim
a gente chora de vez em quando
e ora ou outra quebra porque não nos sobra
nada além de quebrar
mas nunca é ruim o suficiente
como ossos recalcificamos
e tortos e cicatrizados seguimos
cada vez mais frágeis
e cada vez mais mais fortes
e qualquer coisa entre
e vale admitir nessa poesia
que pouco quero ser feliz
a alegria me parece efusiva
como os dedos que trombam
na quina do móvel
por um segundo aquilo é grande como a própria existência
mas logo não é armazenada nem mesmo como memória
ou será que subjugo a alegria
ao transformá-la em uma pequeneza
cotidiana?
a alegria e a felicidade e esses conceitos coloridos
ficam todos confusos e logo não sei se são ao menos reais
vai ver sou pessimista demais
e só vejo a merda toda
vazando e gotejando em tudo que é pleno
e por favor me perdoe se pareço
exclusivamente pessimista
como um poço de sincero pesar e
coisas escuras e humilhantes
sou alegre também e vejo cor nas coisas
e às vezes confundo paixão e amor
amizade e amor
solidão e amor
e ora ou outra o amor sou todo eu e
só o amor importa
o mundo segue e a gente não é
pouco mais que o sobe e desce de
humores incompreendidos
como a maré que muda à luz da lua
reclamo
e fumo
e bebo
e sei que não é assim
que compro meu ingresso
para o Céu
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
Karma
o mar de um lado
o oceano de outro
e morros verdes
por toda a volta
e alguns prédios mais baixos
do que eu
e os andares inferiores e o superior
e as paredes
e a sujeira
e a minha roupa
e a minha pele
e os meus músculos
racionalmente
plenamente
seguro
mas o coração
pulsa tão forte
que me esqueço
que aqui é uma
fortaleza
meu corpo parado
na frente da janela
e os olhos perdidos
em quilômetros de distância
eles veem tudo
a desgraça
e o resto
mentira e verdades se diluem em ordem alfabética
e a gente se obriga a ir sempre pra frente
consumindo o futuro como Pac Man
que roda um labirinto com pouca preocupação
senão a própria vida
a minha já não faz sentido
e isso não me incomoda
primeiro a gente diz que é pelo conforto
depois por necessidade
no fundo é só sobre sobrevivência
a beleza dos murais de colagem
nas minhas paredes
disfarçam as teias de aranha
que dão a volta no teto
de todos os cômodos
eu fico procurando razão pra tudo
oscilando entre convencimento
e a espera de um milagre
eu pus a lógica nas minhas flores
e elas logo morreram
uma hora tudo morre
karma...
a fortaleza apodrece de dentro pra fora
eu me sinto seguro
os sentidos todos aguçados
ou nenhum sentido qualquer
lá de fora os ataques nunca vem
aqui dentro
a guerra de cem anos
segue pulsando
sem motivo
o oceano de outro
e morros verdes
por toda a volta
e alguns prédios mais baixos
do que eu
e os andares inferiores e o superior
e as paredes
e a sujeira
e a minha roupa
e a minha pele
e os meus músculos
racionalmente
plenamente
seguro
mas o coração
pulsa tão forte
que me esqueço
que aqui é uma
fortaleza
meu corpo parado
na frente da janela
e os olhos perdidos
em quilômetros de distância
eles veem tudo
a desgraça
e o resto
mentira e verdades se diluem em ordem alfabética
e a gente se obriga a ir sempre pra frente
consumindo o futuro como Pac Man
que roda um labirinto com pouca preocupação
senão a própria vida
a minha já não faz sentido
e isso não me incomoda
primeiro a gente diz que é pelo conforto
depois por necessidade
no fundo é só sobre sobrevivência
a beleza dos murais de colagem
nas minhas paredes
disfarçam as teias de aranha
que dão a volta no teto
de todos os cômodos
eu fico procurando razão pra tudo
oscilando entre convencimento
e a espera de um milagre
eu pus a lógica nas minhas flores
e elas logo morreram
uma hora tudo morre
karma...
a fortaleza apodrece de dentro pra fora
eu me sinto seguro
os sentidos todos aguçados
ou nenhum sentido qualquer
lá de fora os ataques nunca vem
aqui dentro
a guerra de cem anos
segue pulsando
sem motivo
terça-feira, 6 de novembro de 2018
vim de longe e o que aconteceu já virou lenda
a poesia girava dentro de mim
e nos meus ouvidos eu ouvia
claramente o som de um
liquidificador
misturando essas estrofes
mutilando essas palavras e engrossando
esse caldo vitaminado de
sentimentos e inseguranças
apóstrofes e taumaturgias
poesia vira prosa e vira
livro e biblioteca e vira suco
as letras em pedaços cada vez
menores enquanto balanço
a cabeça no ritmo da música
tudo que sei e sinto derretendo
tornando-se líquido e girando
e girando eu não preciso de mais nada
não acredito mais em reis
meus olhos moribundos
brilham de esperança
vazia e hipotética
eu sou o meu melhor ator
e derreto sozinho
a razão porque eu não me vejo
é que os espelhos me fizeram invisível
e não tem como explicar que fiquei
confuso com todo esse mar de mentiras
que o mundo se acostumou a
banhar-se eu nunca fui rei
ninguém pode me transformar num homem morto
eu vim de longe
pra continuar longe
e longe eu vou indo
enquanto derreto
odiando as presas e as pressas
as jaulas e as cadeias
vou tecendo a minha prisão com
todo o meu sincero amor
teus olhos felinos
ficam sorrindo para os
meus
é mais fácil quando nem os próprios
olhos se veem
mas teus olhos brilham
eu derreto
e bebo dessa poesia
completo e contente
ela me puxa de volta
apareço como fantasma
meus olhos
moribundos
sorrindo
e nos meus ouvidos eu ouvia
claramente o som de um
liquidificador
misturando essas estrofes
mutilando essas palavras e engrossando
esse caldo vitaminado de
sentimentos e inseguranças
apóstrofes e taumaturgias
poesia vira prosa e vira
livro e biblioteca e vira suco
as letras em pedaços cada vez
menores enquanto balanço
a cabeça no ritmo da música
tudo que sei e sinto derretendo
tornando-se líquido e girando
e girando eu não preciso de mais nada
não acredito mais em reis
meus olhos moribundos
brilham de esperança
vazia e hipotética
eu sou o meu melhor ator
e derreto sozinho
a razão porque eu não me vejo
é que os espelhos me fizeram invisível
e não tem como explicar que fiquei
confuso com todo esse mar de mentiras
que o mundo se acostumou a
banhar-se eu nunca fui rei
ninguém pode me transformar num homem morto
eu vim de longe
pra continuar longe
e longe eu vou indo
enquanto derreto
odiando as presas e as pressas
as jaulas e as cadeias
vou tecendo a minha prisão com
todo o meu sincero amor
teus olhos felinos
ficam sorrindo para os
meus
é mais fácil quando nem os próprios
olhos se veem
mas teus olhos brilham
eu derreto
e bebo dessa poesia
completo e contente
ela me puxa de volta
apareço como fantasma
meus olhos
moribundos
sorrindo
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