O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos tons de cinza. Desde não sei quando, procuro adivinhar quando o som vai chegar. Raio. Tempo. Trovão. E no segundo certo, eu diria: Klapaucius e o trovão soaria com a mesma força e poder que o furioso bordão "RAIOS E TROVÕES!" do Dr. Victor, tio de Nino, aquele do cabelo em pé. Mas as coincidências nunca tornaram possível o meu ato. De coincidência em coincidência, agigantando um espaço amostral, tal como um hábito comum de errar. Vai ver é por isso que não entendo dos pavores de raios e trovões. Raio. Tempo. Trovão. E o meu hábito de errar. KLAPAUCIUS! Não que eu estivesse esperando 1000 Simoleões na minha conta. A questão é crer ou não na sorte. E eu deixei de crer há muito tempo. Brinco com ela, sabendo do meu importante laço com o azar.
Certa vez emprestei o carro de um grande amigo. Os carros só emprestamos pros grandes amigos e pros amores e pra família. Pois no primeiro cruzamento, numa espécie de Klapaucius invertido, exatamente como um raio sob sol a pino, um motoqueiro atravessa a ponta do carro, saltitando três ou quatro vezes no seu touro mecânico prateado, até cair um tombo feio. As coincidências costumam ser assim por aqui. - 1000 $ subindo da minha cabeça como recompensa por existir ali.
Pois os céus em monótonos tons de cinza. Fico esperando a chuva. Não sou o maior fã das chuvas. É verão e eu já estou agasalhado. O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos sons de cinza.
Em voz baixa, falo um lento e imperceptível klapaucius. O mundo vibra. Meus tímpanos e a minha caixa toráxica vibram. A estrutura do prédio e as suas janelas vibram. Eu sorrio. Eu agradeço.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Aquele usual problema do Projeto Apollo
Foi-se meu tempo.
Fui visitar a Lua e me perdi.
Virei na esquina errada.
Os suspiros me atropelam.
As minhas ideias não me protegem.
Meu estômago arde.
Não sei dizer se é fome.
Ou vontade de morrer.
Sede.
De amor.
De sexo.
De água.
As ruas eu não conheço.
Sei que sou uma barata.
Vivendo pra comer de restos.
A Lua diz que me espera.
Perdi o meu assento.
Nem sei mais como sorrir.
Lá foi o meu tempo.
Fiquei preso no engarrafamento.
Com meus braços em cruz, apertados com corda.
O importante em receber chibatadas é nunca chorar.
O choro é o fim do orgulho.
O orgulho é a mãe das ideias.
Mente vazia.
Mentecapto.
Mentiroso. Sorri gostoso.
Mente cheia.
Transbordam fatos
e esquecemos do número exato de cigarros fumados.
E quem começou com essa merda toda.
Cristovão Colombo.
Índios escravos. Negros escravos. Brancos escravos. Meus avós escravos e meus pais escravos.
Escrevo. Escravo.
Escarro.
Estrago.
Fecho os olhos e busco voltar no passado.
Mudar tudo desde o começo.
Cortar o cordão umbilical antes da hora.
Sem comida.
Sem vida.
Não sei em quem dói.
Se em Jesus.
Omolú.
Ou São Sebastião.
Se é só azia, ou gastrite,
cirrose
câncer
ou morte.
Fecho os olhos e quero voltar pro futuro.
Que futuro é esse que não existe?
Erraram a data. Me jogaram pra longe.
Errei a Lua.
Entrei na
esquina
errada.
Esperança.
Fui visitar a Lua e me perdi.
Virei na esquina errada.
Os suspiros me atropelam.
As minhas ideias não me protegem.
Meu estômago arde.
Não sei dizer se é fome.
Ou vontade de morrer.
Sede.
De amor.
De sexo.
De água.
As ruas eu não conheço.
Sei que sou uma barata.
Vivendo pra comer de restos.
A Lua diz que me espera.
Perdi o meu assento.
Nem sei mais como sorrir.
Lá foi o meu tempo.
Fiquei preso no engarrafamento.
Com meus braços em cruz, apertados com corda.
O importante em receber chibatadas é nunca chorar.
O choro é o fim do orgulho.
O orgulho é a mãe das ideias.
Mente vazia.
Mentecapto.
Mentiroso. Sorri gostoso.
Mente cheia.
Transbordam fatos
e esquecemos do número exato de cigarros fumados.
E quem começou com essa merda toda.
Cristovão Colombo.
Índios escravos. Negros escravos. Brancos escravos. Meus avós escravos e meus pais escravos.
Escrevo. Escravo.
Escarro.
Estrago.
Fecho os olhos e busco voltar no passado.
Mudar tudo desde o começo.
Cortar o cordão umbilical antes da hora.
Sem comida.
Sem vida.
Não sei em quem dói.
Se em Jesus.
Omolú.
Ou São Sebastião.
Se é só azia, ou gastrite,
cirrose
câncer
ou morte.
Fecho os olhos e quero voltar pro futuro.
Que futuro é esse que não existe?
Erraram a data. Me jogaram pra longe.
Errei a Lua.
Entrei na
esquina
errada.
Esperança.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Desfibrilador
Enquanto eu cagava, um mosquito desapercebido, sem notar a minha imensa existência, passa voando pela minha frente. Sem pensar, dou-lhe um rápido tapa que resulta numa queda em espiral mais leve que o ar. O mosquito cai morto, num cemitério de insetos e aracnídeos que, sem querer, tiveram acidentais encontros com a vida humana.
A vida continua. Pelo menos a minha. E de mais um porrilhão de seres no universo. Pobre mosquitinho. Me pergunto se ele é um inimigo à minha espécie ou se é só mais um bicho que dividia a casa comigo. Será que sugam o sangue humano? Transmitem doenças? Eu tusso como um cachorro. Minhas cordas vocais e minha laringe e meu esôfago e mais outras coisas dentro do meu crânio tremem num tom grave. A tosse reverbera o microscópico coraçãozinho do mosquito, e como uma etérea massagem cardíaca, apaga a luz à qual a minúscula alma voaria até encontrar seus zilhões de parentes. Sem a luz do fim do túnel para o mosquito seguir a morte, mexe uma asa e logo outra e se põe a voar um voo desastrado. Eu, o mais novo veterinário de insetos, salvei uma vida com uma tosse canina que põe em cheque as decisões de Deus. Quem morre ou quem vive depende da tosse que me vier. Tento pisar nele, no ar, mas meu chinelo de vô só desvia ele da trajetória inicial. Ele cai no chão e insiste em viver. Levanta um segundo voo de esperança e finalmente piso sobre ele. A morte. Coitado. Será que era um inimigo da raça humana? Ou será que dividia a casa comigo?
A vida continua. Pelo menos a minha. E de mais um porrilhão de seres no universo. Pobre mosquitinho. Me pergunto se ele é um inimigo à minha espécie ou se é só mais um bicho que dividia a casa comigo. Será que sugam o sangue humano? Transmitem doenças? Eu tusso como um cachorro. Minhas cordas vocais e minha laringe e meu esôfago e mais outras coisas dentro do meu crânio tremem num tom grave. A tosse reverbera o microscópico coraçãozinho do mosquito, e como uma etérea massagem cardíaca, apaga a luz à qual a minúscula alma voaria até encontrar seus zilhões de parentes. Sem a luz do fim do túnel para o mosquito seguir a morte, mexe uma asa e logo outra e se põe a voar um voo desastrado. Eu, o mais novo veterinário de insetos, salvei uma vida com uma tosse canina que põe em cheque as decisões de Deus. Quem morre ou quem vive depende da tosse que me vier. Tento pisar nele, no ar, mas meu chinelo de vô só desvia ele da trajetória inicial. Ele cai no chão e insiste em viver. Levanta um segundo voo de esperança e finalmente piso sobre ele. A morte. Coitado. Será que era um inimigo da raça humana? Ou será que dividia a casa comigo?
sábado, 9 de agosto de 2014
Carta de amor
quero me sentar
aqui na frente
dessa tela
e te pintar
em poesia
que eu queria ser
o filósofo
que fugiu
do ponto
final
pra continuar
girando em espiral
minhas notas
em enciclopédia
traduzindo
os meus dias
dos melhores
tons de azul
e verde
e cinza e
vermelho
tons
de sons
distintos
e distantes
sons de tons distantes
distintos
foi ontem
e o tempo
parece
tanto
tempo
te pedir desculpas
por esse
ser o melhor
eu
que eu nunca fui
tão bom
pra mim
te agradecer
por ser
esse meu melhor
eu
repetindo
sem cessar
elogios coloridos
das minhas cordas
desgastadas
de fumaça
pra te ver sorrir de novo
rodopiando num ballet eterno
pra não te deixar
esquecer
que essa é só
mais
uma carta de
amor
que escrevi
pra você
aqui na frente
dessa tela
e te pintar
em poesia
que eu queria ser
o filósofo
que fugiu
do ponto
final
pra continuar
girando em espiral
minhas notas
em enciclopédia
traduzindo
os meus dias
dos melhores
tons de azul
e verde
e cinza e
vermelho
tons
de sons
distintos
e distantes
sons de tons distantes
distintos
foi ontem
e o tempo
parece
tanto
tempo
te pedir desculpas
por esse
ser o melhor
eu
que eu nunca fui
tão bom
pra mim
te agradecer
por ser
esse meu melhor
eu
repetindo
sem cessar
elogios coloridos
das minhas cordas
desgastadas
de fumaça
pra te ver sorrir de novo
rodopiando num ballet eterno
pra não te deixar
esquecer
que essa é só
mais
uma carta de
amor
que escrevi
pra você
sábado, 24 de maio de 2014
Dia de azar
Noite fria e as mãos dela geladas de suor. Acende outro cigarro. Ela demora. Mas parece tão rápido. Em seis minutos ela estava no elevador. Olha seu reflexo de relance e logo se vira de frente pra porta. O elevador é lento. Seis andares em que aquele homem aranha francês já estaria dentro do apartamento, mas o elevador custa subir. Será que eu peso 540kg e não sei? Se olha no espelho e se arrepende. A porta do elevador abre com um pin. As mãos dela estão suando. Ela toda sua. O cachecol a sufoca. Ela acende outro cigarro.
Na frente da porta, fica se perguntando se quer tocar a campanhia ou não. Viver o inevitável ou viver a ignorância? Ah, que merda. Ela sente os cabelos furiosos como uma juba. Ela furiosa como um leão. Bate o pé no chão e dói no calcanhar. Ela quer chorar.
Resolveu tocar a campanhia, pois sabia que o cara que ela pega há muito tempo estava com outra garota. As fontes eram sólidas e sei lá, ninguém quer morrer corno.
Ele demora. Ela tira o celular da bolsa, são 18h44 e o dia parece que nunca vai acabar. Tremendo, erra a bolsa e deixa o celular cair no chão. Percebe que sujou todo o capacho de cinzas de cigarro. Ela arruma o cabelo, olha para trás e ele abre a porta. Ela se vira e ele está de calça, zíper aberto. Ela consegue sentir o calor dele de longe. Ela sente vontade do calor. Quer abrir a calça dele, pois sabe que ali embaixo ele está sem cueca.
- Menina! Você não pode fumar aqui no corredor!
Pega o cigarro da boca dela e leva pra dentro. Ela não entra. Espera ele voltar.
- Tá sozinho?
- Não.
Sem reação. Que filho da puta. Sem nem mexer a porra da sobrancelha.
- Hm.
- Você tá bem?
- Não sei.
Ele tenta um abraço, ela sente nojo. Ela toca os braços dele, tentando impedir o abraço. E ele é o calor. Ela o empurra.
- Eu queria você.
- Não quer mais?
Ela deixa ser abraçada. Ele é tão quente.
- Quero.
- Agora?
- Não tem ninguém aí. Tem?
- Tem. Mas tem lugar pra mais um.
Ela o empurra com força. Ela acha que consegue ver ele emanando calor. A pele toda vermelha. Ela tem vontade de arranhar o peito dele, até que ele sangre por inteiro. Ela quer arranhar o rosto dele. Ela quer esfolá-lo vivo.
O ódio.
Ela procura a carteira do cigarro. Suas mãos trêmulas suam. Ela põe o cigarro na boca.
- Você não pode fumar aqui. Venha, vamos fumar lá dentro.
Ela quer gritar.
Foge pela escada de incêndio e se sente pulando num paraquedas. Seis andares em um longo salto triste, que ela bem que queria que resultasse em morte. E por falha técnica, ela chegaria lá embaixo rápido demais, sem paraquedas pra desacelerar a gravidade. Mas ela está viva, perdida na rua, pois não lembra onde deixou o carro. Ou se veio de carro.
As mãos dela suam, ela procura os cigarros que caíram no capacho cinzeiro. Tateia os bolsos e na jaqueta encontra o que ela não fumou no corredor. Ele está bem amassado, mas é o que tem. Ela atravessa a rua e senta no meio fio.
Na frente da porta, fica se perguntando se quer tocar a campanhia ou não. Viver o inevitável ou viver a ignorância? Ah, que merda. Ela sente os cabelos furiosos como uma juba. Ela furiosa como um leão. Bate o pé no chão e dói no calcanhar. Ela quer chorar.
Resolveu tocar a campanhia, pois sabia que o cara que ela pega há muito tempo estava com outra garota. As fontes eram sólidas e sei lá, ninguém quer morrer corno.
Ele demora. Ela tira o celular da bolsa, são 18h44 e o dia parece que nunca vai acabar. Tremendo, erra a bolsa e deixa o celular cair no chão. Percebe que sujou todo o capacho de cinzas de cigarro. Ela arruma o cabelo, olha para trás e ele abre a porta. Ela se vira e ele está de calça, zíper aberto. Ela consegue sentir o calor dele de longe. Ela sente vontade do calor. Quer abrir a calça dele, pois sabe que ali embaixo ele está sem cueca.
- Menina! Você não pode fumar aqui no corredor!
Pega o cigarro da boca dela e leva pra dentro. Ela não entra. Espera ele voltar.
- Tá sozinho?
- Não.
Sem reação. Que filho da puta. Sem nem mexer a porra da sobrancelha.
- Hm.
- Você tá bem?
- Não sei.
Ele tenta um abraço, ela sente nojo. Ela toca os braços dele, tentando impedir o abraço. E ele é o calor. Ela o empurra.
- Eu queria você.
- Não quer mais?
Ela deixa ser abraçada. Ele é tão quente.
- Quero.
- Agora?
- Não tem ninguém aí. Tem?
- Tem. Mas tem lugar pra mais um.
Ela o empurra com força. Ela acha que consegue ver ele emanando calor. A pele toda vermelha. Ela tem vontade de arranhar o peito dele, até que ele sangre por inteiro. Ela quer arranhar o rosto dele. Ela quer esfolá-lo vivo.
O ódio.
Ela procura a carteira do cigarro. Suas mãos trêmulas suam. Ela põe o cigarro na boca.
- Você não pode fumar aqui. Venha, vamos fumar lá dentro.
Ela quer gritar.
Foge pela escada de incêndio e se sente pulando num paraquedas. Seis andares em um longo salto triste, que ela bem que queria que resultasse em morte. E por falha técnica, ela chegaria lá embaixo rápido demais, sem paraquedas pra desacelerar a gravidade. Mas ela está viva, perdida na rua, pois não lembra onde deixou o carro. Ou se veio de carro.
As mãos dela suam, ela procura os cigarros que caíram no capacho cinzeiro. Tateia os bolsos e na jaqueta encontra o que ela não fumou no corredor. Ele está bem amassado, mas é o que tem. Ela atravessa a rua e senta no meio fio.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Piá
Não consigo mais ficar sozinho. Não me aguento. Estou elétrico e enquanto estou com alguém, essa eletricidade é transportada à outra pessoa. E quando estou sozinho, essa eletricidade estala os pelos dos meus braços. Os arrepios sobem e descem a minha espinha e encontram a minha orelha. Eu ouço tua voz. Coisas que eu nem consigo e nem tento ouvir. Só tua voz em português indistinto. E se eu fecho os meus olhos a tua boca se move com a voz. Eu me sinto tão infantil. Tão tolo. Bobo.
Não consigo deixar de sorrir sozinho. Sorriso largo de quem descobriu um mundo novo. Mas dentro da minha cabeça, o velho eu não se larga das velhas tradições. Me sinto elétrico. Apaixonado. Há quanto tempo não me sinto apaixonado. Tanto tempo que passei a achar que a paixão era fruto da solidão humana e que, na realidade, a paixão seria um filtro cognitivo. Tudo que se vê e tudo que se sente é aglutinado nessa estrutura de estacas profundas. O mundo sob os olhos de alguém que, em um mundo de plena solidão, acorda acompanhado e recebe carinho. Um mundo surreal.
Fico achando que meu momento preferido do dia é quando eu te vejo sem você me ver. Como esperando decorar com o olhar todos os detalhes. Num processo repetitivo de observação incógnita. Até que teus olhos encontram os meus e eu os vejo sorrir brilhantes. Fico achando que é coisa da minha cabeça. Que os olhos não sabem sorrir e que teus olhos são sempre brilhantes. O teu cabelo preto brilha. Eu quero todos os meus dedos perdidos nos teus cabelos que brilham. Me sinto tolo. Infantil. Tão Bobo.
Fico achando que não tem nada a ver com paixão, mas os eventos se sucedem em poesia pura, cheio de metáforas piegas. É uma estrela que vejo lá no céu, que eu sei que nunca esteve ali. Vênus, Afrodite, a Deusa do Amor, me avisando que brilha o brilho mais forte. Numa praia sem luz, a gente descobre que o outro gosta de astronomia. Escrevendo assim, a parte piegas se perde. Numa praia sem luz, apontamos as estrelas que conhecemos. E Vênus é a estrela mais brilhante. É que eu sei que Vênus brilhava pra mim, sem saber direito se teus olhos faziam o mesmo. E sob essas estrelas e planetas e toda a Via Láctea, nos beijamos o beijo que eu sempre quis. Ou é a âncora que você tem tatuada no pescoço. Que me prende o olhar. Meu sorriso envergonhado abre, consciente do significado dessa comparação. Meus olhos grudados no teu pescoço, na tua âncora da nuca. Amarrado na outra tatuagem, um laço pontilhado atrás da orelha. Um mundo em que não basta eu evitar admitir a paixão, mas em que ela encaixa nos meus olhos os seus filtros. Um mundo surreal.
tem nada a ver com paixão
só com os tantos detalhes
que eu guardei tão bem
na memória
do tato
das minhas mãos
do meu nariz e da minha boca
me sinto
piá
que espera o recreio
pra poder chegar
mais
perto
Não consigo deixar de sorrir sozinho. Sorriso largo de quem descobriu um mundo novo. Mas dentro da minha cabeça, o velho eu não se larga das velhas tradições. Me sinto elétrico. Apaixonado. Há quanto tempo não me sinto apaixonado. Tanto tempo que passei a achar que a paixão era fruto da solidão humana e que, na realidade, a paixão seria um filtro cognitivo. Tudo que se vê e tudo que se sente é aglutinado nessa estrutura de estacas profundas. O mundo sob os olhos de alguém que, em um mundo de plena solidão, acorda acompanhado e recebe carinho. Um mundo surreal.
Fico achando que meu momento preferido do dia é quando eu te vejo sem você me ver. Como esperando decorar com o olhar todos os detalhes. Num processo repetitivo de observação incógnita. Até que teus olhos encontram os meus e eu os vejo sorrir brilhantes. Fico achando que é coisa da minha cabeça. Que os olhos não sabem sorrir e que teus olhos são sempre brilhantes. O teu cabelo preto brilha. Eu quero todos os meus dedos perdidos nos teus cabelos que brilham. Me sinto tolo. Infantil. Tão Bobo.
Fico achando que não tem nada a ver com paixão, mas os eventos se sucedem em poesia pura, cheio de metáforas piegas. É uma estrela que vejo lá no céu, que eu sei que nunca esteve ali. Vênus, Afrodite, a Deusa do Amor, me avisando que brilha o brilho mais forte. Numa praia sem luz, a gente descobre que o outro gosta de astronomia. Escrevendo assim, a parte piegas se perde. Numa praia sem luz, apontamos as estrelas que conhecemos. E Vênus é a estrela mais brilhante. É que eu sei que Vênus brilhava pra mim, sem saber direito se teus olhos faziam o mesmo. E sob essas estrelas e planetas e toda a Via Láctea, nos beijamos o beijo que eu sempre quis. Ou é a âncora que você tem tatuada no pescoço. Que me prende o olhar. Meu sorriso envergonhado abre, consciente do significado dessa comparação. Meus olhos grudados no teu pescoço, na tua âncora da nuca. Amarrado na outra tatuagem, um laço pontilhado atrás da orelha. Um mundo em que não basta eu evitar admitir a paixão, mas em que ela encaixa nos meus olhos os seus filtros. Um mundo surreal.
tem nada a ver com paixão
só com os tantos detalhes
que eu guardei tão bem
na memória
do tato
das minhas mãos
do meu nariz e da minha boca
me sinto
piá
que espera o recreio
pra poder chegar
mais
perto
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Tradução simultânea
me faltam as palavras
eu suspiro
um suspiro frustrado
ah
só sensação e sentimento
indefinível
indeterminável
interminável
eu sou a eletricidade
já fui o fogo
já fui a água
já fui o frio
mas nunca fui
a eletricidade
me faltam palavras
mas me sobram
esses meus elétrons
que pulam de lá para cá
nos meus pelos eriçados
eu sou a eletricidade
e eu preciso transferir essa energia
pra qualquer objeto capaz de receber esses meus elétrons
ou que mandam elétrons novos ao meu corpo
nunca gostei de tomar choque
e tenho estalado
de vez em quando
e sentido a corrente vibrar em mim
segurando o celular na tomada
apertando o botão do acendimento automático do fogão
ou regulando a temperatura do chuveiro
não dá pra me acostumar
porque não é bom
meus pensamentos em corrente
sem palavra pra definir
é nas costas
perto dos braços
que os elétrons se movimentam mais
e eu não sei dizer
o que é
eu preciso de gente
preciso de energia
energia mecânica
ou potencial ou qualquer outra
descendo um morro correndo
ou pulando no mar de uma pedra
eu transformo minha energia
e vivo bem
é que parado
é tudo tão estranho
as sinapses
corrente
i
que agonia
teu calor
Q
tua mão em volta do meu pescoço
transformando corrente em calor
que agonia
ah
eu preciso
eu preciso
trocar
esses meus
elétrons velhos
antes que
eles
me enlouqueçam
eu suspiro
um suspiro frustrado
ah
só sensação e sentimento
indefinível
indeterminável
interminável
eu sou a eletricidade
já fui o fogo
já fui a água
já fui o frio
mas nunca fui
a eletricidade
me faltam palavras
mas me sobram
esses meus elétrons
que pulam de lá para cá
nos meus pelos eriçados
eu sou a eletricidade
e eu preciso transferir essa energia
pra qualquer objeto capaz de receber esses meus elétrons
ou que mandam elétrons novos ao meu corpo
nunca gostei de tomar choque
e tenho estalado
de vez em quando
e sentido a corrente vibrar em mim
segurando o celular na tomada
apertando o botão do acendimento automático do fogão
ou regulando a temperatura do chuveiro
não dá pra me acostumar
porque não é bom
meus pensamentos em corrente
sem palavra pra definir
é nas costas
perto dos braços
que os elétrons se movimentam mais
e eu não sei dizer
o que é
eu preciso de gente
preciso de energia
energia mecânica
ou potencial ou qualquer outra
descendo um morro correndo
ou pulando no mar de uma pedra
eu transformo minha energia
e vivo bem
é que parado
é tudo tão estranho
as sinapses
corrente
i
que agonia
teu calor
Q
tua mão em volta do meu pescoço
transformando corrente em calor
que agonia
ah
eu preciso
eu preciso
trocar
esses meus
elétrons velhos
antes que
eles
me enlouqueçam
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