sábado, 27 de agosto de 2016

Fotossíntese

tudo pela
cura

temos sintomas
todos eles
e às vezes os conhecemos
às vezes nem os percebemos

e outras sabemos os nomes
de cor

como uma
lista de medalhas
que são só
nossas

uma porção de nomes
que explicitam
o que é
ser

o ser humano
é julgado
pelo que consome

mas deveria
ser julgado
pela lista
dos seus
problemas

o ser é o seu fardo
a vida é uma longa queda
e a morte é o impacto
final



que horror



e com esse amontoado de sintomas
priorizamos uns ou outros
e nos moldamos para sermos
sempre melhores
e melhores
até que esses sintomas
selecionados
façam parte de um
passado de histórias
de uma pessoa
pior

mas nunca é bom
o suficiente

nunca é certo
o suficiente

nunca nos cura
o suficiente




e os outros sintomas ficam todos ali
como crostas de fumaça
de longos e inexpressivos anos
de existência
e respiração
e contaminação
nos pulmões

a lista é atualizada
pois precisamos
da cura
e ela faz parte
do nosso propósito

a felicidade não é o propósito da vida

mas a felicidade pode ser a própria cura
ou algo parecido

ou só mais uma ilusão
ninguém
nunca
vai me provar
que é um

ou outro




lutamos
mais
e sempre
fingindo
que é pelos nossos filhos
e netos e bisnetos
que é sobre nossos pais e avós e bisavós
que é sobre a humanidade
ou sobre a vida na Terra

resilientes como a hera
que sobe as outras árvores
e faz sombra sobre elas
e as sufoca
sempre trepando e crescendo e indo em direção ao Sol como se ele pudesse nos alimentar a alma inclusive

sobrevivemos

domingo, 14 de agosto de 2016

Jantar

o mundo gira como uma sopa de ocasiões
e eu não sei se eu sinto nojo
ou fome

sábado, 13 de agosto de 2016

Bomba relógio

deleitosamente mergulhava nos mesmos motes
escolhendo fonemas distintos que simultaneamente me traziam de volta a quem eu
verdadeiramente
sou

talvez não evolua por falta de prática
ou estou num processo evolutivo incessante
sempre mais velho
e mais barbado

defenestrar meu presente não me soa consciente
ou sábio sob qualquer
instância
mas sigo num jogo de adivinhações em que
eu não paro de ganhar
experiência

sempre me debatendo na mesma poça de lama
buscando ar onde não há
me arranho todo e eu não faço questão de sentir dor

qualquer surto é demais
fecho os olhos e não surto
porque de certa forma
o surto
não vale
o sofrimento

amarro forte as minhas viseiras
e seriamente evito olhares
e contatos

sempre resiliente

esperando

explodir às 11h de uma terça feira

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A atualidade da história, a extinção do agora e o imediatismo do futuro distante

sinceramente
não gostaria
de ir pra
frente

sinceramente
não gostaria
de me mover
nem
um
centímetro

mas a maré
do mar de gentes
me leva
para lá
e para cá

me afundando em suas próprias
ondas
tomo um longo fôlego
e me satisfaço
boiando
de lá
para cá

sem mais que o esforço necessário
a corrente me leva
e eu participo
e sou mais uma pequena
e fundamental
e substituível
molécula
que dá corpo
à sociedade

o mundo evolui
rápido
demais

e eu assisto tudo isso
com meus próprios olhos
e eu compreendo
o significado
de História

sinceramente
eu não quero participar
dessa sociedade

sinceramente
eu não quero
mudar o mundo
nem vê-lo mudar
nem coisas velhas
nem novas
nem pouca coisa qualquer

sinceramente
eu boio
e a correnteza me leva
e os humanos já não são
mais os mesmos
as relaçoes
e a economia
e a política
e as cidades
e as culturas
e as tecnologias
não são mais
as mesmas

eu não sou o mesmo faz tempo
eu não quero ser
e sou

os anos estão passando mais rápido?
o futuro parece agora
mais um segundo
que significa muita coisa
pra construçao da
humanidade

é o tempo
de eu observar
as texturas
do vidro
com os olhos fixos
até que uma onda
me leve para cima
ou para baixo
e faça de mim
um ser humano melhor
ou
pior

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O desespero e a calma

um boato branco
e trivial
como um tiro no escuro
que desvia por ruelas
e toca a pele
por descuido

o medo incontrolável
de dormir
em público
e os sonhos
confundem a realidade
e os olhos fecham por um breve
segundo
e nasce-se outra vez

uma golfada de ar
para todo o medo
que conscientemente
juro
não sentir

um raio
e um percurso
e um trovão

uma refeição
bem preparada
que te mata

um piso
errado
e
bang

é tudo novo
golfo de novo
se é que essa palavra
existe

o ar me incomoda

não tenho medo
de nada
exceto do tempo
e da luz
e da louça
e do desemprego
e do passado
e do presente
e do futuro
e de todas essas catástrofes que não param de girar em torno de mim
como se eu fosse um imã de caos

o terreno é depilado
as fumaças negras e densas surgem esporadicamente
os carros se engavetam com lentidão absurda

um choque
atrás do
outro

acho que tem mais ambulâncias
e mais vítimas
e mais corpos sem rostos
sempre seus corpos
deitados
e uma multidão
ou um policial
ou um bombeiro
ou uma porta
sempre esconde
o rosto
da vítima

o mundo anda lindo
o céu e suas cores
e as árvores e suas folhas e flores
e o amor

o amor nos deixa cego
e nos sentimos gratos
pela vida

conscientes desse sufoco nessa merda toda
conscientemente calmos
e gratos
e vivos

terça-feira, 28 de junho de 2016

Datilógrafo

de novo os dedos
urgiam por escrever

as mesmas palavras
e as mesmas estrofes
viciadas
que diziam
sempre
a mesma coisa

amarrei-os
e o cérebro deu uma volta nele mesmo
como se por revolta
girasse no sentido horário

morre aqui
a capacidade
de bater em teclas
e dizer
alguma
coisa

domingo, 19 de junho de 2016

O dado de 20 faces e a revolução do planeta

um prelúdio
de um dia novo

a experiência de experimentar a inovação
cultivando a ideia como um processo
de seguir em frente
e quebrar o código

5h da manhã
e o meu vizinho
faz barulhos

me pergunto se o acordei
ou se ele está acordando os outros
vizinhos

aqui eu tenho sono
e a curiosidade

às vezes parece que há um fio de esperança
às vezes parece que ha um mar inteiro
às vezes a palavra sequer
existe

eu nem sei ao certo
o que hoje é
certo

não sei dizer
se algo que não começa
precisa ter fim

preso nos meus próprios vícios de linguagem
meu dicionário de páginas amarelas
meu pacote de regras
que dizem
quem sou
eu

primeiro um primata
depois um elefante branco
assim um caranguejo
ou um passarinho
ou uma planta em um
pequeno vaso
sufocada
em suas próprias
raízes

eco
dos meus próprios
barulhos

eco de mim nas superfícies todas

o som bate e rebate e a gata mia pedindo amor

eu mio
pedindo
amor

minha âncora
me suporta
ou me
afunda

minhas asas
me fazem voar
ou dificultam
o meu
caminhar

meu canto
é ode
e
ódio