quinta-feira, 8 de maio de 2025

cochicho

tem uma voz dentro de mim
que não é a minha voz
fala como se recitasse poesia
e em versos me dizia
o que eu jamais pensei

em formato de estrofes
com jargões que não usei
vai falando as palavras
que eu não sei se eu sei

uma voz que não é minha
não sei se masculina ou
feminina mas é voz suave
e algo grave e algo aguda

tem som de escuro
falada em microfone
pois lhe ouço as respirações
e os sons que não são voz
que sua boca faz

fala catavento
só funciona
se apontado
para a direção
certa

postado para o sol que se põe
giro em mim
com o vento me fechando os
olhos
jogando as cinzas
do meu cigarro
na minha cara
suja

fala como se tudo fosse silêncio
e só nesse escuro particular
eu lhe ouvisse em segredo

como ignorando
a obra lá fora
a moto que passa
ambulância sirene
ônibus e caminhão
roncando bem alto
as vozes todas as vozes
reais que eu ouço
e vejo que são
gente

a minha voz
não é gente

não é minha de verdade
mas com carinho
pego pra mim

porque sou só eu
que lhe escuto
sussurrando verdades
e mentiras
sobre um mundo
assustado

terça-feira, 15 de abril de 2025

Chororô de um milhão de anos e o tempo que corrói tudo

é sempre sobre o outro
eu já sei disso há bastante tempo
o outro é o protagonista
e a história se desenrola a partir daí

o outro tem suas demandas
e é perfeitamente aceitável
todos temos demandas
todo mundo precisa de alguma coisa

o outro precisa de mim
o que sempre me fez
me sentir necessário

necessário
essa palavra é pesada
e ninguém percebe
o peso que ela trás

ser necessário
me obrigou a
ser vivo

ser vivo em um lugar
que eu nunca quis
ser vivo

nunca quis
ser vivo
mas eu sempre
quis entregar

me entregar para o outro
e me sentir não apenas
útil mas com certeza
necessário

nunca quis ser vivo
e sempre quis ser
necessário

merda de dicotomia
um lado a inexistência
o outro uma obrigação
de existir

hoje eu não quero ser necessário
mas eu morro de medo de morrer
eu quero ser vivo
quero muito ser vivo

e viver às minhas custas
viver as minhas histórias
as minhas derrotas e vitórias
mas meu corpo não quer nada disso

meu corpo não quer ser vivo
e o outro ainda demanda
mesma vida outros conflitos

um corpo que não quer existir
uma mente que quer ser viva

o outro que quer que eu seja necessário
e eu nem aí pela necessidade do outro

a necessidade não diz mais
que a minha vida tem valor

mas o outro tem demanda
a vida tem demanda
o corpo tem demanda
eu tenho demanda

necessário

me sinto em uma caverna
passando por um espaço
onde só meu corpo cabe
e na fraqueza me movo

meu movimento é lento
os músculos doem e
tudo é hostil

o outro e eu mesmo
toneladas de terra
o ar rarefeito

espremido com
o seguinte objetivo
ir em frente

seguir vivo

eu preciso sair daqui

a ansiedade vence
o pânico vence

o outro perde
se decepciona

demandas mal cumpridas
versos mal escritos
noites mal dormidas
almoços mal feitos
comida mal digerida
mal e mal vivo

malemá

malemá
escrevo
o que
sinto

aí já vem a vontade de apagar tudo
porque eu tô dizendo que tudo é uma merda
porque existe o outro
porque existe demanda
porque existe um corpo
a culpa nunca é minha
eu não consigo me vestir culpado
a culpa é minha sou todo culpa


eu só me visto

culpado.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O brilho de uma mente brilhante ou a história de uma alma vulgar

eu sinto falta da tristeza
porque agora tudo
vira raiva
e sou esse fogo

virei fogo
e tudo que
toco
vira cinza

tudo vira raiva
e porque não sei
o significado
não vira ódio

por pouco
não vira
ódio

me sinto pequeno
porque antes o
fogo era sensualidade

e eu me sentia
sensual pra
caralho

eu já fui fogo
um fogo triste
com os olhos
de sedução

um corpo de sexo
e um cérebro de sexo
e tudo isso
era fogo

hoje o fogo é
raiva

só raiva

sem tristeza

pequeno como pederneira
que por fricção
vira faísca
e todo o resto
é combustível

eu explodo
em chamas

tudo que toco
vira cinza

vou incendiando
a minha volta
o meu espaço
o meu próprio corpo

tudo é incêndio
e o que eu era
virou cinza

terça-feira, 1 de abril de 2025

Acredite, engula, aproveite, ganhe, mais um dia

A manhã vinha cheia de barulhos e tudo me parecia demais. Às vezes é demais. O trânsito lá fora, as pessoas, tantas pessoas, um mundo cheio de pessoas que buzinam e silenciosamente rumam ao seu destino. Porque há sempre um destino. Um fim. E um começo. E um novo fim. E um ciclo que se repete até o universo ir se desintegrando passo a passo, buzina a buzina. O sinal abre. O sinal fecha. Pouco carro anda. A bicicleta ultrapassa. O barulho. O barulho. Os meus talheres batendo na minha louça. Minha xícara batendo na minha mesa. Meu coração batendo no meu peito. Minhas angústias sonoras. Alto e bom tom. Como música sem ritmo. Como ritmo sem instrumento. Como instrumento sem som. Tudo reverbera. Belo como animal irrequieto. Monstruoso como quatro mil palavras presas na garganta. A manhã vinha cheia de barulhos e tudo me parecia demais. Às vezes é demais. Quatro mil palavras presas na garganta e o trânsito lá fora. Tantas pessoas como ritmo irrequieto. Meu coração como talheres batendo na minha louça. Sinal fecha, sinal abre, e meu peito quase não fala. Estou a um universo de distância do meu corpo. Meu corpo fechado. Minha mente aberta. Eu diluo no céu. O céu barulhento. Como animal irrequieto craquejo no meu próprio silêncio. Meu corpo quer tanto dançar. O barulho sem ritmo. Como música para os ouvidos. Às vezes é demais. De fone de ouvido, em silêncio, me protejo. Meu barulho me assusta. Ligo música. E ela me contempla. Me completa. Meu barulho me esquece. Meu corpo quer dançar. Aumento o volume até que o limite seja físico. Enquanto o tímpano não dói, a música fica mais alta. E alto, eu desmancho. Meu corpo caindo, minha mente em pé. E eu me perguntando que merda que eu fiz da vida. Quem eu deveria ter sido? Onde eu errei e onde eu acertei? Acertei no meu pé. Manco até o banheiro. Acendo a luz e me vejo no espelho. Sem barulho. Só música. Manco até essa cadeira. A gata deita sobre as minhas pernas. E eu me sinto tão longe de tudo que há de legitimo. Tudo surreal. Sem barulho. Só uma manhã com quatro mil palavras escondidas em uma garganta que não fala. Os dedos craquejam e em mosaico os cacos de todas elas se juntam. Meu corpo pede dança, meus dedos o fazem. Já fui outro. Anseio por amanhã. Serei eu mesmo. Sem ritmo, sem pessoas, sem soluço e sem universo. Só eu mesmo.

terça-feira, 25 de março de 2025

Leve, me leve, pesa pouco, pesa um dedo, pesadelo, um leve pesadelo

tudo é sonho
e meu corpo mole
pede cama
mais sonho

a vida é sonho
e eu assisto
resisto enquanto
posso mas
eu sei que é
sonho

tudo é sono
e meu corpo
sonolento
busca sonhos
que eu sei
que não são
realidade

a realidade é
puro sonho
e meu corpo
me leva

me leva
como a corrente
do mar

o vento
me empurra
e o frio
me congela
nesse dia
quente

minha pele
em chamas
tudo é sonho
e eu não sonho
só assisto

a vida
é sono

e ela passageira

como um sonho
que esqueci
sem nem mesmo
ter acordado
ainda

a vida
passa
o sono
fica

esqueço o sonho

e café
atrás de
café

fico ansioso

e não acordo

terça-feira, 18 de março de 2025

Mais uma terça cinzenta de mais um ano anormal como todos os outros que já se passaram

o tempo me dói
as ancas e os ombros
os dedos e os punhos

o tempo me dói
o passado e o futuro
o presente sobretudo

o tempo me dói
a fluidez de si
enquanto eu duro

não sei por quanto
tempo duro

queria amolecer
e fluir com o
tempo

mas duro
e parado
me sinto
relíquia
abandonada

e relíquia aqui
quer dizer
o brinquedo
de uma criança
que viveu
há mil anos
atrás

duro
inútil
quebrado
velho

relíquia
sem valor
só com tempo
e o tempo
me destruindo

o tempo me dói
me ataca
me ofende

passa e me ultrapassa
enquanto escrevo essa
poesia e penso
que o perco

e ele vaza como
areia na ampulheta
como água nas mãos
ou água na pedra?

água
que machuca
gota
a gota

o tempo fluido
e eu duro
até quando?

até quando
durar é prioridade?

não é sobre vida
não é sobrevida

não é sobre duração
não é sobre validade

é sobre durar

stand up
stand still
chin up
vibes thrilled

duro como posso
e posso pouco
duro pouco
pouco duro

soft kid
soft fit
softy soft
kitty kit

splash out
spin out
craze up
mount up

flash out
flash back
flip out

raise your tax
pay your bills
mind your trails

dure o que durar
duro como pedra
frágil como duro
quebra em lasca

foi assim
que o tempo veio
e escreveu isso

com dor
e sem amor,
seu querido
eu

sábado, 15 de março de 2025

Amen to that

my body is a temple
the temple is crumbling
my body is a temple
the temple is crumbling
my body is a temple
the temple is crumbling
my body is
a temple
the temple is
crumbling
my body is
a temple
the temple
is crumbling
my body
is a temple
the temple
is
crumbling
my
body
is
a temple
the
temple
is
crumbling

my body
is

a
temple

the
temple 

is

crum
bl
i
n

tem

ple
crm

bln

bdy
cru
m

blinh