quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Universo

meu universo está nos teus passos
tua saia sobe
e desce
sem me mostrar nada
mas me deixa com sede
com fome
com vida
e eu te sigo
silenciosamente
esperando o vento
ou um degrau
ou qualquer suspiro que
transforme
quem
eu
sou.

Beleza

gostava mais quando era ninfeta
mas isso é porque sou doente

domingo, 20 de janeiro de 2013

O poeta agnóstico e seu temor pelo Criador do Universo


e se eu pudesse escreveria todos os meus poemas
que tenho pra escrever pra você
e o mundo inteiro saberia
que amo todos os centímetros da tua epiderme
que teu cheiro me exalta
e tua boca me excita

mas não posso

este poeta se fecha para o mundo
não com o medo do amor
como outrora
pois o poeta que é poeta está sempre enamorado
seja por todas as pernas que aparecem sob vestidos e shorts curtos
ou os decotes que mostram o coração e a alma
ou o movimento chicoteante dos cabelos das que andam contra o vento
ou o simples voo de um pássaro
o mio de um gato
a beleza duma flor

o poeta ama o mundo em toda a sua desgraça
pois Deus lhe fez assim
inocente de amor
e cretino o suficiente para amar tudo o que puder
o amor do mundo

me fecho com medo do Criador
que levanto bandeiras de não sua inexistência
mas da minha independência Dele
e se existe ou não
não faz parte do meu discurso
pois o poeta teme que Deus não se sinta confortável
com que Ele não seja necessitado

então o poeta não escreve mais
já que não quer que Deus ouça seus suspiros
suas dores
seus amores
e todas as divagações
boas ou más
que se passam dentro desse cérebro

se soubesse quanto te amo
e se eu pudesse largar todo esse amor
pelos meus dedos
e imprimí-los nesta tela
esvaziando meu coração desses planos que dificilmente se tornarão realidade
você fugiria de mim
e eu ficaria sozinho de novo

só com Deus

rindo de mim

e da minha solidão

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Amor à primeira vista

O problema é que ela era gostosa demais, se é que isso é problema...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O insone fracassado

é de noite, quando a insônia bate forte, que todo o meu indomável positivismo se esvai. o escuro e a horizontalidade me deixam sem sono e, se o tenho, não consigo dormir, envolto em obscuridades e desesperanças. durante o dia, basta a luz do sol bater no meu rosto que entendo o poder e a magia da vida, então tenho a certeza que os fracassos são uma contínua contribuição aos conhecimentos. mas é durante as longas horas que passo ouvindo os insetos e os morcegos e os vizinhos que me sinto impotente, apto a desistir a qualquer segundo, cogitando fugir e tentar a vida onde nunca pensei em tentar. mudar, de novo, esperando mais um fracasso que me grava na memória a ojeriza e a ideia de fugir de novo.
maldita insônia que fode com as minhas manhãs perdidas de sonos mal dormidos e me põe ideias tão erradas quanto a própria morte na minha cabeça instável. amanhã é outro dia e eu vou ver beleza em tudo, então agradecerei estar vivo e saberei conviver tão bem com os meus inúmeros e ininterruptos fracassos, mas antes, eu preciso dormir...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Me ame!

- E... o que você acha do amor?
- Como assim?
- Qual a sua opinião sobre o amor?
- Não entendi. Qual é a sua opinião sobre o amor?
- Ai, deixa pra lá. Esquece.
- Vai, ouvindo a tua resposta, eu entendo a tua pergunta...
- O amor é complicado.
- Hm.
- Ele é complexo. Ora dói, ora cura, ora entristece, ora alegra. O amor constrói e destrói. O amor é o mais forte dos sentimentos.
- Maior que o medo?
- Acho que sim.
- Você já sentiu medo?
- Claro que já. Todo mundo já sentiu medo. Mas nem todo mundo sentiu o amor.
- Tem certeza?
- Tenho. Medo a gente tem todo dia. Amor, é coisa rara, única.
- Hm...
- Entendeu?
- Aham.
- O que você acha sobre o amor? - Ela virou o rosto para ele, deitando a cabeça nos ombros. Ele tira o cabelo dela que lhe encomoda a respiração. Ela vira os olhos para ele. Ela sorri.
- Não sei.
- Claro que sabe. Você sabe de tudo. - Ri.
- Eu não sei de nada! - Ele sorri.
- Fala!
- Eu não sei se você tá preparada pra ouvir o que eu penso sobre o amor.
- Nossa...
- É, tenho uma opinião meio ácida sobre ele. E não quero acidezes na minha cama. Não agora. - Olha para o teto e passa os dedos na orelha dela, tão levemente que ela estremece e todos os pêlos das costas se eriçam.
- Quero te conhecer por completo. Acho que mereço saber o que você pensa sobre mim.
- Penso que você é minha sorte.
- Não sou seu amor? - Ela levanta o corpo e olha para ele, sorrindo. Ele olha para ela, olha para o rádio relógio do criado mudo, 3:54, não se lembra se trancou o carro, mas a essa hora isso já não importa, ou não tanto quanto o amor.
- Ai, meu Deus...
- Fala!
- Eu não acredito em amor. - Ela apaga o sorriso, sem mover mais um músculo sequer, senão as sobrancelhas que sobem um pouco, muito pouco.
- Como assim não acredita em amor? - Ela senta na pélvis dele. Ele olha o corpo dela, pensa que deveria acreditar em amor, pelo menos para não perder a sorte. Ele não era feio, nem bonito, ela era uma delícia, era sorte.
- Ah, amor. Deixa quieto... outra hora a gente tem essa conversa...
- Você não acredita em amor e eu sou o seu amor? - Os olhos delas se abrem de espanto e aos poucos se umedecem. Ele percebe a cagada que fez, tenta puxá-la para uma abraço, mas ela desce da pélvis e se senta de pernas cruzadas, ao lado dele.
- O amor é que nem religião. Eu respeito todas as religiões e respeito todos os que amam. Eu não acredito em amor. O conceito de amor, de paixão, de felicidade a dois, se confundem, é tudo muito subjetivo. O amor não existe, são reações biológicas e psicológicas que acontecem no nosso corpo, que algumas pessoas tendem a crer que é amor. Pode ser alegria, pode ser satisfação, pode ser prazer, pode ser a mistura disso tudo.
- Você pode acreditar em Deus ou não acreditar em Deus, afinal é impossível provar que existe ou não existe um Deus. Mas o sentimento... todo mundo sente! Fome, você sente fome. É um sentimento. Você não pode dizer que não acredita na fome...
- A fome é clara. Você sabe o que a fome, eu sei o que é a fome, todos sentimos fome, pessoas morrem de fome. Não é um sentimento, é uma sensação.
- Amor, as pessoas sentem amor... - Ela já levantava a voz, apoiada nos joelhos. Ele estava sentado ao lado dela, costas apoiada nos travesseiros apoiados na cabeceira da cama.
- Algumas sentem, outras não. É difícil definir amor.
- Você nunca vai me amar, né? - Ela olha para baixo, começa a chorar. Ele tem a impressão que ela está olhando para o pênis dele, mas não passa de uma impressão (que infelizmente o excita, ele sente vergonha dessa excitação).
- Não...
- Eu não posso amar alguém que não pode amar. Você acabou com toda a minha segurança!
- Não posso amar, mas isso não significa que eu não sinta!
- Amor? - Olhou para ele, o rosto vermelho.
- Sentimentos, todos eles. Você me faz feliz!
- Amor, quero saber de amor!
- É claro que não posso sentir amor. Eu nem sei o que é amor. Provavelmente eu sinta todo dia, quando o cachorro me acorda de manhã, ou quando minha mãe me liga pra dizer que sente saudades, ou quando eu te vejo entrar no carro e tua saia levanta um pouquinho. - Ele fala sorrindo.
- ISSO NÃO É AMOR! - Sai da cama, pega a calça do chão, a blusa da cadeira. Não consegue encontrar o sutien e a calcinha. Ele não sabe o que fazer. Ela entra no banheiro e bate a porta. Ele ouve ela chorar alto, como se o mundo tivesse acabado. O chuveiro liga.
- Provavelmente isso é amor... - Ele fala pra si mesmo e acende um cigarro; apaga a luz e se concentra na brasa que estala enquanto ele aspira a fumaça...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O imortal

Chegou aos cinquenta relativamente saudável. Os pulmões, principalmente o direito (sabe lá Deus por que um pior do que o outro), não funcionavam tão bem, mas nada mais natural, afinal era fumante e aspirava diariamente toda a poluição da cidade. O fígado não doía, isso era bom, afinal dor no fígado significa que é tarde demais, então ele ainda podia beber a sagrada cerveja do final de semana e os ocasionais porres de vez em quando. O coração fibrilava mais do que batia devido aos excessos de emoções, amores, dores, horrores, exctasy e cocaína, mas não precisava se preocupar tão cedo com isso. Os olhos não viam tão bem quanto outrora viram, ele já levava o jornal lá longe para lê-lo, mas isso já fazia há muito tempo, bem antes de completar os cinquenta. Só a próstata que ele não sabia como ia, mas isso era questão de hombridade, jamais se permitiria fazer um exame de próstata.
- Doutor, quanto tempo tenho?
- Que pergunta. Sabe lá Deus quanto tempo tem!
- Quero números, doutor. Estou preso a essa vida, então preciso vivê-la, mas pra isso preciso saber quanto tempo tenho.
- Não sou eu que posso dizer quanto tempo tem. Tudo pode acontecer!
- Eu não quero morrer, doutor.
- Você tem cinquenta anos, homem. Olhando pra você, vejo que tem muito tempo pela frente, quem sabe 20 ou 30 anos.
- Eu quero mais.
- Quantos anos mais?
- Cem, duzentos. Quanto der. - O médico olhou para ele espantado.
- Ninguém vive duzentos anos...
- Doutor, eu sei que existe tecnologia o suficiente pra me fazer imortal. Só quero saber quanto custa isso...
- Isso não passa de ficção científica. As pessoas morrem, as células morrem, consequentemente os órgãos, você morre.
- Então não adianta trocarmos meus órgãos? Meu pulmão, meu fígado, meu coração. Minha próstata!
- Não, eles não precisam ser trocados.
- Claro que precisam. Se eu tiver órgãos novos, posso viver mais alguns anos.
- De que adianta trocar uns órgãos se o resto vai envelhecer de qualquer jeito? Os teus músculos, as tuas veias, o teu cérebro.
- E se colocarmos o meu cérebro no corpo de um garoto? - O médico olhou mais espantado.
- Isso não faz nenhum sentido!
- Talvez eu esteja no médico errado. Bom, muito obrigado, doutor.
- Sinta-se a vontade. Até a próxima. - Abriu a porta para o paciente.
- É, talvez daqui a uns cem anos, se você ainda estiver aqui. - Sorriu e apertou a mão do médico.

O médico sentou-se na cadeira e chamou sua secretária pelo telefone.
- Quantos pacientes temos ainda?
- Quatro, doutor.
- Tem alguém na sala de espera?
- Não. O próximo está marcado para daqui 20 minutos.
- Desmarque todos. Não estou me sentindo bem.
- Ok.

Pegou as chaves do carro e passou em casa para pegar a bicicleta. Precisava pensar. Se todos os homens fossem imortais, onde caberiam as pessoas? Quem teria tal previlégio? Somente os ricos ou toda a população mundial? Até onde os empregos, as casas, as ruas, aguentariam o nascimento de novos seres imortais?

Estacionou a bicicleta e sentou-se num banco a beira mar para telefonar para seu sócio.
- Cara, precisamos parar com isso.
- De novo?
- Hoje veio outro, pedindo a imortalidade.
- E o que você disse a ele?
- Que era impossível.
- Ah, você percebe que me deve dinheiro, não é mesmo? Quanto a gente perdeu nesse sujeito? Você é um idiota.
- Eu não quero mais fazer isso.
- Eu só não entendo por que você precisa pensar em desistir a cada 5 ou 6 anos. Desse jeito, vou passar a eternidade tentando te convencer que o dinheiro não compra a felicidade, mas sim a saúde.
- O cara de hoje deu a ideia de colocarmos o cérebro dele no corpo de um jovem. - Riu, tentando se livrar do nervosismo.
- As pessoas assistem muita televisão. - Riu o sócio.
- Bom, eu posso ligar pra ele de novo, dizer o preço.
- Nah, deixa quieto. Não precisamos de um cara que acha que pode ser trocado por um jovem. Uma coisa é querer ser imortal, outra é ser egoísta o suficiente a ponto de crer que pode acabar com a vida de um garoto afim de viver um pouco mais.
- Obrigado.
- De nada. Acredite, outros virão. E temos bastante tempo pra salvar vidas e ocasionalmente torná-las eternas. - Desligaram o telefone e ele voltou a pedalar. Já fazia o mesmo caminho há 35 anos. Logo estava na hora de se mudar de cidade de novo. Salvar vidas em outro lugar.