A manhã vinha cheia de barulhos e tudo me parecia demais. Às vezes é demais. O trânsito lá fora, as pessoas, tantas pessoas, um mundo cheio de pessoas que buzinam e silenciosamente rumam ao seu destino. Porque há sempre um destino. Um fim. E um começo. E um novo fim. E um ciclo que se repete até o universo ir se desintegrando passo a passo, buzina a buzina. O sinal abre. O sinal fecha. Pouco carro anda. A bicicleta ultrapassa. O barulho. O barulho. Os meus talheres batendo na minha louça. Minha xícara batendo na minha mesa. Meu coração batendo no meu peito. Minhas angústias sonoras. Alto e bom tom. Como música sem ritmo. Como ritmo sem instrumento. Como instrumento sem som. Tudo reverbera. Belo como animal irrequieto. Monstruoso como quatro mil palavras presas na garganta. A manhã vinha cheia de barulhos e tudo me parecia demais. Às vezes é demais. Quatro mil palavras presas na garganta e o trânsito lá fora. Tantas pessoas como ritmo irrequieto. Meu coração como talheres batendo na minha louça. Sinal fecha, sinal abre, e meu peito quase não fala. Estou a um universo de distância do meu corpo. Meu corpo fechado. Minha mente aberta. Eu diluo no céu. O céu barulhento. Como animal irrequieto craquejo no meu próprio silêncio. Meu corpo quer tanto dançar. O barulho sem ritmo. Como música para os ouvidos. Às vezes é demais. De fone de ouvido, em silêncio, me protejo. Meu barulho me assusta. Ligo música. E ela me contempla. Me completa. Meu barulho me esquece. Meu corpo quer dançar. Aumento o volume até que o limite seja físico. Enquanto o tímpano não dói, a música fica mais alta. E alto, eu desmancho. Meu corpo caindo, minha mente em pé. E eu me perguntando que merda que eu fiz da vida. Quem eu deveria ter sido? Onde eu errei e onde eu acertei? Acertei no meu pé. Manco até o banheiro. Acendo a luz e me vejo no espelho. Sem barulho. Só música. Manco até essa cadeira. A gata deita sobre as minhas pernas. E eu me sinto tão longe de tudo que há de legitimo. Tudo surreal. Sem barulho. Só uma manhã com quatro mil palavras escondidas em uma garganta que não fala. Os dedos craquejam e em mosaico os cacos de todas elas se juntam. Meu corpo pede dança, meus dedos o fazem. Já fui outro. Anseio por amanhã. Serei eu mesmo. Sem ritmo, sem pessoas, sem soluço e sem universo. Só eu mesmo.
terça-feira, 1 de abril de 2025
terça-feira, 25 de março de 2025
Leve, me leve, pesa pouco, pesa um dedo, pesadelo, um leve pesadelo
tudo é sonho
e meu corpo mole
pede cama
mais sonho
a vida é sonho
e eu assisto
resisto enquanto
posso mas
eu sei que é
sonho
tudo é sono
e meu corpo
sonolento
busca sonhos
que eu sei
que não são
realidade
a realidade é
puro sonho
e meu corpo
me leva
me leva
como a corrente
do mar
o vento
me empurra
e o frio
me congela
nesse dia
quente
minha pele
em chamas
tudo é sonho
e eu não sonho
só assisto
a vida
é sono
e ela passageira
como um sonho
que esqueci
sem nem mesmo
ter acordado
ainda
a vida
passa
o sono
fica
esqueço o sonho
e café
atrás de
café
fico ansioso
e não acordo
terça-feira, 18 de março de 2025
Mais uma terça cinzenta de mais um ano anormal como todos os outros que já se passaram
o tempo me dói
as ancas e os ombros
os dedos e os punhos
o tempo me dói
o passado e o futuro
o presente sobretudo
o tempo me dói
a fluidez de si
enquanto eu duro
não sei por quanto
tempo duro
queria amolecer
e fluir com o
tempo
mas duro
e parado
me sinto
relíquia
abandonada
e relíquia aqui
quer dizer
o brinquedo
de uma criança
que viveu
há mil anos
atrás
duro
inútil
quebrado
velho
relíquia
sem valor
só com tempo
e o tempo
me destruindo
o tempo me dói
me ataca
me ofende
passa e me ultrapassa
enquanto escrevo essa
poesia e penso
que o perco
e ele vaza como
areia na ampulheta
como água nas mãos
ou água na pedra?
água
que machuca
gota
a gota
o tempo fluido
e eu duro
até quando?
até quando
durar é prioridade?
não é sobre vida
não é sobrevida
não é sobre duração
não é sobre validade
é sobre durar
stand up
stand still
chin up
vibes thrilled
duro como posso
e posso pouco
duro pouco
pouco duro
soft kid
soft fit
softy soft
kitty kit
splash out
spin out
craze up
mount up
flash out
flash back
flip out
raise your tax
pay your bills
mind your trails
dure o que durar
duro como pedra
frágil como duro
quebra em lasca
foi assim
que o tempo veio
e escreveu isso
com dor
e sem amor,
seu querido
eu
sábado, 15 de março de 2025
Amen to that
my body is a temple
the temple is crumbling
my body is a temple
the temple is crumbling
my body is a temple
the temple is crumbling
my body is
a temple
the temple is
crumbling
my body is
a temple
the temple
is crumbling
my body
is a temple
the temple
is
crumbling
my
body
is
a temple
the
temple
is
crumbling
my body
is
a
temple
the
temple
is
crum
bl
i
n
tem
ple
crm
bln
bdy
cru
m
blinh
quarta-feira, 12 de março de 2025
Espelho, espelho meu, eu existo?
eu me olho no espelho
e sei que sou eu
isso é bom
é novidade
e é bom
há pouco
não sabia
quem estava ali
era outro eu
que não era eu
uma imagem de alguém
que eu nunca fui
ou que não imaginava
que algum dia
seria
me vejo no espelho
e me vejo
mais velho
mas sou eu
minhas novas rugas
mas minha mesma
cara cansada
olhar vazio
de quem pouco
espera do
fim do mundo
olheiras roxas
que me dão
uma cara de
ser
eu
mesmo
antes eram bochechas
que não eram minhas
eram dos meus primos
eu reconhecia
aquelas bochechas
mas elas não eram
minhas
me olho no espelho
e é bom
porque sei que
eu voltei
pro meu corpo
e meu corpo segue como antes
do mesmo jeitinho de quando
não era mais eu no espelho
a mesma sensação de cansaço
as mesmas dores
os mesmos tiques
mas sou eu
e meus pelos embranquecendo
e meus olhos caídos
meu cabelo na cara
o espelho importa
porque ele mostra
a verdade
como se antes eu não fosse
mas me acostumasse com
o que era
e agora sou de novo
porque sei que sou
minhas costelas voltaram a aparecer
me sinto pequeno e frágil
esse sou eu
isso é bom
porque o espelho
me diz a verdade
: eu sou
quinta-feira, 6 de março de 2025
Vai ver não tem mais o que ser feito
não sei trazer as palavras
elas parecem longe
e sem elas
me sinto sozinho
sempre odiei vomitar
e de repente
minha vontade
é de vomitar
não é enjoo
é vontade
vontade de vomitar tudo
tudo mesmo
até que eu me revire
e de mim não sobre nada
é esse o sentimento
e as palavras que eu sei
são cruas
é vômito
eu me sinto péssimo
não me sinto triste
me sinto péssimo
veio tudo junto
a vontade de ser invisível
o desespero da existência
o corpo
o corpo
on the line
a um traço de
acabar
eu sei que não é verdade
que é só uma ressaca
que vai ser bem longa
eu sei que por umas horas
eu disse que me sentia
ótimo
essa lembrança
me destrói
é como se eu quisesse
esquecer
como se eu não aceitasse
que eu senti
e eu sei que me senti
completo
grande
repleto de mim
cheio de existência
mas eu tava bêbado
ultra medicado
esse não era eu
eu já fui embora
sobrou isso
que eu não consigo gostar
o corpo
on the line
sempre on the line
o corpo
volta tudo
a vontade de não existir
volta tudo
a nostalgia de ser o que fui
e se me perguntar
eu vou dizer
que fui um lixo
a dualidade
dessa saudade
de ser
quando na verdade
eu não queria
e agora que quero
não sei
eu não sei ser
eu não sei escrever
eu não sei dizer
eu não sei falar
eu não sei ouvir
eu não sei ver
eu não sei sentir
eu simplesmente
não sei
o corpo
ele desiste
e eu quero tanto
desistir
toda hora
eu quero
desistir
toda hora
que eu quero ser
eu desisto
(e só sobra aqui
a vontade de pedir
perdão
porque eu desapontei
todos vocês)
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
Deus te traz de volta
o título era o nome da música
e ela me subiu
eu queria muito
dizer o que eu sinto
mas era música
e eu subi
queria muito meus dedos dançando
agora de olhos fechados
minha mente cada vez mais longe
meu cérebro desconectado do corpo
como um ser por si só
um cérebro sozinho
como num grande vasilhame
cheio de líquido rosa
e ele ali
ele e medula espinhal
sem corpo
lá longe
bem longe desses dedos
que não escrevem nada
e nem dançam
e nem traduzem
só escrevem
porque é isso
que o cérebro manda
lá longe
só pedindo
que escreva
e registre esse momento singular
como um novo ponto no tempo
um novo lugar no espaço virtual
um paradigma
um novo capítulo
uma página nova
como se o resto fosse passado
e não houvesse futuro
senão páginas em branco
esperando que esses dedos
finalmente
escrevam
queria Deus
que me trouxesse
de volta
mas me deixa
imerso lá em cima
porque sou cérebro
e o resto
pouco importa
Assinar:
Postagens (Atom)