sábado, 25 de abril de 2015

Karma

Achei que fui eu.
"- Ele para no terminal?
 - Não.
 - Não vai pro TISAN?
 - Santo Antônio."
Um casal tira as suas dúvidas.
Ele é rude. Aparentemente puto com o atraso que tais perguntas vão gerar lá no ponto final.
"- Mas vai pro terminal?
 - Sim, claro."
Ele resmunga. Eu ouço ele resmungar. Eu sinto ele resmungar. O resmungo dele arranha minhas costas. Eu explodo como uma estrela. Longe e silenciosa explosão. Não viro pra ele.
"- Porra."
Ele diz bem alto, para que eu e o casal ouçamos.
O semáforo fecha.
Eu abro meu sorriso e cumprimento o cobrador. Converso e extraio dele toda a simpatia que seus jovens bigodes são capazes de fornecer.
Me sinto bem.
Achei que fui eu.
E numa rápida conferência, vejo que meu próximo ônibus está marcado para daqui uma hora e meia.
Sorrio de novo.
As maldades se multiplicando como um vírus.
Achei que fui eu.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Fidelidade

ela me olha uma vez.
eu nao desvio o olhar.
o meu olhar veio primeiro
depois veio ela
e numa aparente inconveniência
burlamos uma importante lei que impede que dois objetos ocupem o mesmo espaço.

o meu olhar
e o olhar dela
e por experiência em lutar por minhas terras
ela desvia o olhar.
olha de novo.
sorri.
passa a catraca.

passa um senhor
passa um cabeludo
passam pessoas até que o espaço se esvazie
e o movimento se torne paisagem

a vejo outra vez, agora no terminal

ela é bonita

estudo o tempo
e o trajeto até meu conforto

entramos no mesmo ônibus
ela primeiro
eu atrás

ela me procura
ela me encontra
ela sorri
respondo com um sorriso de olhos

sento lá no fundo.

me pergunto se quebro outras leis
e acostumado com a qualidade de ser um condolecente foragido
organizo em sistemas complexos quais sao prioridade

tudo legislado
certos e errados
sob leis e decretos e retificaçoes facilmente transmutáveis
respeitando dogmas e princípios
infelizmente os da sociedade

e daí me faço criminoso lá e cá

esqueci a cor dos cabelos dela
dela a do ônibus

fico com vontade dos cabelos
ora escuros como a sombra daqui na Lua
ora claros como a penumbra que nos deixa achar que estamos imaginando o resto do astro

será que manter o olhar e responder o sorriso me faz um criminoso?

nao consigo me concentrar no próprio livro.

os cabelos
ora grossos e pesados
ora finos e leves

imagino ela nas festas com amigos
os amigos dela
os meus amigos

imagino ela bêbada
gritando alto
gesticulando pra cima
aumentando sua pequenez
transformando-se numa fada barulhenta
uma fada de loucura

e imagino todos aqueles que sentem o que eu sinto quando eu a vejo
guardadas as devidas proporçoes

imagino o olhar sincero
a simpatia sutil

imagino ela como uma fada
sorrindo com orgulho de ser bela
bela como ela nunca precisou querer ser
mas que um continente inteiro de pessoas gostaria de ser
voando de lá pra cá
com movimentos graciosos feito uma dança de uma gata que se retira por falta de interesse

sorrio com essa ideia
fico achando que ela sabe ser bela
e sabe sobreviver nesse mundo estranho

fico achando que minha mente e a dela estao em plena sincronia
mas quem pode dizer o que pensa o outro?

vai ver ela nao voa como uma fada
nao seduz sem querer
nao sorri de orgulho

vai ver se ofende
e foge
e empurra
e sente saudades de mim
saudades como um protetor

nao queria esse tipo de saudades
queria a saudade boa

estou lendo o mesmo paragrafo pela quarta vez.
diz sobre o infinito. o deserto e o fundo do mar como o infinito.

concluo que o infinito é Deus
e que talvez Deus nao seja infinito

a ponte brilha
sempre brilha
como uma grande árvore de natal
que brilha o ano todo

vai ver somos nós
e nós estamos concluindo coisas erradas sobre a evoluçao da sociedade

nós

quem somos nós?

só vejo elevados que se expandem com o pulsar da cidade
as vias vazias se entortando pra chegar no mesmo ponto
uma corrida de células sedentárias de armadura até os dentes
vermelho e verde e carro e gente

quem somos nós?

pelo menos os elevados passam sobre as árvores

é claro,
elas devem se sentir amaldiçoadas por conviver com uma quantidade de sombra que de repente nao respeita mais a rotaçao dos astros
mas antes um ser amaldiçoado do que um nao ser

nao sei

vejo as árvores sendo destroçadas por escavadeiras
que estupram a terra
e planificam o monte

uma faixa para onibus
um progresso sustentável

nao ser

maiores veias
para mais células

chego a conclusao que nao gostaria de ver o que imaginei
ver no sentido de assistir
repleto de visao e consciência

e muito menos pequena ou severamente inconsciente,
a imaginaçao é a semente para todo fruto de pensamento

admito que gostaria que ela fosse a fada
mas nao na minha frente

longe de mim
enquanto eu nao puder me abraçar gostosamente aos braços dela

enquanto isso
deixo elas sorrirem
e elogiarem
e gostarem de mim

é o meu ponto
surfando em pé
vejo que a menina ainda está lá
e seus cabelos sao castanho claros

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mega Sena

O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos tons de cinza. Desde não sei quando, procuro adivinhar quando o som vai chegar. Raio. Tempo. Trovão. E no segundo certo, eu diria: Klapaucius e o trovão soaria com a mesma força e poder que o furioso bordão "RAIOS E TROVÕES!" do Dr. Victor, tio de Nino, aquele do cabelo em pé. Mas as coincidências nunca tornaram possível o meu ato. De coincidência em coincidência, agigantando um espaço amostral, tal como um hábito comum de errar. Vai ver é por isso que não entendo dos pavores de raios e trovões. Raio. Tempo. Trovão. E o meu hábito de errar. KLAPAUCIUS! Não que eu estivesse esperando 1000 Simoleões na minha conta. A questão é crer ou não na sorte. E eu deixei de crer há muito tempo. Brinco com ela, sabendo do meu importante laço com o azar.
Certa vez emprestei o carro de um grande amigo. Os carros só emprestamos pros grandes amigos e pros amores e pra família. Pois no primeiro cruzamento, numa espécie de Klapaucius invertido, exatamente como um raio sob sol a pino, um motoqueiro atravessa a ponta do carro, saltitando três ou quatro vezes no seu touro mecânico prateado, até cair um tombo feio. As coincidências costumam ser assim por aqui. - 1000 $ subindo da minha cabeça como recompensa por existir ali.
Pois os céus em monótonos tons de cinza. Fico esperando a chuva. Não sou o maior fã das chuvas. É verão e eu já estou agasalhado. O céu brilha em luz roxa. A luz se desfaz. O céu volta aos seus monótonos sons de cinza.
Em voz baixa, falo um lento e imperceptível klapaucius. O mundo vibra. Meus tímpanos e a minha caixa toráxica vibram. A estrutura do prédio e as suas janelas vibram. Eu sorrio. Eu agradeço.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Aquele usual problema do Projeto Apollo

Foi-se meu tempo.
Fui visitar a Lua e me perdi.
Virei na esquina errada.

Os suspiros me atropelam.
As minhas ideias não me protegem.
Meu estômago arde.

Não sei dizer se é fome.
Ou vontade de morrer.

Sede.
De amor.
De sexo.
De água.

As ruas eu não conheço.
Sei que sou uma barata.
Vivendo pra comer de restos.

A Lua diz que me espera.
Perdi o meu assento.
Nem sei mais como sorrir.

Lá foi o meu tempo.
Fiquei preso no engarrafamento.
Com meus braços em cruz, apertados com corda.
O importante em receber chibatadas é nunca chorar.

O choro é o fim do orgulho.
O orgulho é a mãe das ideias.

Mente vazia.
Mentecapto.
Mentiroso. Sorri gostoso.

Mente cheia.
Transbordam fatos
e esquecemos do número exato de cigarros fumados.
E quem começou com essa merda toda.

Cristovão Colombo.

Índios escravos. Negros escravos. Brancos escravos. Meus avós escravos e meus pais escravos.
Escrevo. Escravo.
Escarro.
Estrago.

Fecho os olhos e busco voltar no passado.
Mudar tudo desde o começo.
Cortar o cordão umbilical antes da hora.

Sem comida.
Sem vida.

Não sei em quem dói.
Se em Jesus.
Omolú.
Ou São Sebastião.
Se é só azia, ou gastrite,
cirrose
câncer
ou morte.

Fecho os olhos e quero voltar pro futuro.

Que futuro é esse que não existe?

Erraram a data. Me jogaram pra longe.
Errei a Lua.
Entrei na
esquina
errada.

Esperança.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Desfibrilador

Enquanto eu cagava, um mosquito desapercebido, sem notar a minha imensa existência, passa voando pela minha frente. Sem pensar, dou-lhe um rápido tapa que resulta numa queda em espiral mais leve que o ar. O mosquito cai morto, num cemitério de insetos e aracnídeos que, sem querer, tiveram acidentais encontros com a vida humana.
A vida continua. Pelo menos a minha. E de mais um porrilhão de seres no universo. Pobre mosquitinho. Me pergunto se ele é um inimigo à minha espécie ou se é só mais um bicho que dividia a casa comigo. Será que sugam o sangue humano? Transmitem doenças? Eu tusso como um cachorro. Minhas cordas vocais e minha laringe e meu esôfago e mais outras coisas dentro do meu crânio tremem num tom grave. A tosse reverbera o microscópico coraçãozinho do mosquito, e como uma etérea massagem cardíaca, apaga a luz à qual a minúscula alma voaria até encontrar seus zilhões de parentes. Sem a luz do fim do túnel para o mosquito seguir a morte, mexe uma asa e logo outra e se põe a voar um voo desastrado. Eu, o mais novo veterinário de insetos, salvei uma vida com uma tosse canina que põe em cheque as decisões de Deus. Quem morre ou quem vive depende da tosse que me vier. Tento pisar nele, no ar, mas meu chinelo de vô só desvia ele da trajetória inicial. Ele cai no chão e insiste em viver. Levanta um segundo voo de esperança e finalmente piso sobre ele. A morte. Coitado. Será que era um inimigo da raça humana? Ou será que dividia a casa comigo?

sábado, 9 de agosto de 2014

Carta de amor

quero me sentar
aqui na frente
dessa tela
e te pintar
em poesia

que eu queria ser
o filósofo
que fugiu
do ponto
final
pra continuar
girando em espiral

minhas notas
em enciclopédia
traduzindo
os meus dias
dos melhores
tons de azul
e verde
e cinza e
vermelho

tons
de sons
distintos
e distantes

sons de tons distantes
distintos

foi ontem
e o tempo
parece
tanto
tempo

te pedir desculpas
por esse
ser o melhor
eu

que eu nunca fui
tão bom
pra mim

te agradecer
por ser
esse meu melhor
eu

repetindo
sem cessar
elogios coloridos
das minhas cordas
desgastadas
de fumaça

pra te ver sorrir de novo

rodopiando num ballet eterno
pra não te deixar
esquecer

que essa é só
mais
uma carta de
amor

que escrevi
pra você

sábado, 24 de maio de 2014

Dia de azar

Noite fria e as mãos dela geladas de suor. Acende outro cigarro. Ela demora. Mas parece tão rápido. Em seis minutos ela estava no elevador. Olha seu reflexo de relance e logo se vira de frente pra porta. O elevador é lento. Seis andares em que aquele homem aranha francês já estaria dentro do apartamento, mas o elevador custa subir. Será que eu peso 540kg e não sei? Se olha no espelho e se arrepende. A porta do elevador abre com um pin. As mãos dela estão suando. Ela toda sua. O cachecol a sufoca. Ela acende outro cigarro.
Na frente da porta, fica se perguntando se quer tocar a campanhia ou não. Viver o inevitável ou viver a ignorância? Ah, que merda. Ela sente os cabelos furiosos como uma juba. Ela furiosa como um leão. Bate o pé no chão e dói no calcanhar. Ela quer chorar.
Resolveu tocar a campanhia, pois sabia que o cara que ela pega há muito tempo estava com outra garota. As fontes eram sólidas e sei lá, ninguém quer morrer corno.
Ele demora. Ela tira o celular da bolsa, são 18h44 e o dia parece que nunca vai acabar. Tremendo, erra a bolsa e deixa o celular cair no chão. Percebe que sujou todo o capacho de cinzas de cigarro. Ela arruma o cabelo, olha para trás e ele abre a porta. Ela se vira e ele está de calça, zíper aberto. Ela consegue sentir o calor dele de longe. Ela sente vontade do calor. Quer abrir a calça dele, pois sabe que ali embaixo ele está sem cueca.
- Menina! Você não pode fumar aqui no corredor!
Pega o cigarro da boca dela e leva pra dentro. Ela não entra. Espera ele voltar.
- Tá sozinho?
- Não.
Sem reação. Que filho da puta. Sem nem mexer a porra da sobrancelha.
- Hm.
- Você tá bem?
- Não sei.
Ele tenta um abraço, ela sente nojo. Ela toca os braços dele, tentando impedir o abraço. E ele é o calor. Ela o empurra.
- Eu queria você.
- Não quer mais?
Ela deixa ser abraçada. Ele é tão quente.
- Quero.
- Agora?
- Não tem ninguém aí. Tem?
- Tem. Mas tem lugar pra mais um.
Ela o empurra com força. Ela acha que consegue ver ele emanando calor. A pele toda vermelha. Ela tem vontade de arranhar o peito dele, até que ele sangre por inteiro. Ela quer arranhar o rosto dele. Ela quer esfolá-lo vivo.
O ódio.
Ela procura a carteira do cigarro. Suas mãos trêmulas suam. Ela põe o cigarro na boca.
- Você não pode fumar aqui. Venha, vamos fumar lá dentro.
Ela quer gritar.
Foge pela escada de incêndio e se sente pulando num paraquedas. Seis andares em um longo salto triste, que ela bem que queria que resultasse em morte. E por falha técnica, ela chegaria lá embaixo rápido demais, sem paraquedas pra desacelerar a gravidade. Mas ela está viva, perdida na rua, pois não lembra onde deixou o carro. Ou se veio de carro.
As mãos dela suam, ela procura os cigarros que caíram no capacho cinzeiro. Tateia os bolsos e na jaqueta encontra o que ela não fumou no corredor. Ele está bem amassado, mas é o que tem. Ela atravessa a rua e senta no meio fio.