tem limite e tem fronteira
tem excesso e tem borda
tem cansaço e tem pressão
tem o que é meu
e o que é do mundo
limite fala de mim
do meu corpo cansado
da minha mente quebrada
do meu ódio insensato
do meu sorriso verdadeiro
da minha melancolia
e só do que eu sou capaz
limite é meu
e aos tatos
procuro
conhecer
fronteira fala do outro
de paredes que me apertam
e me modelam
e me colocam no meu lugar
sentado com medo sem voz
fala demais e eu grito para ser ouvido
fico sem voz e faço silêncio
a fronteira me cala
passa dos meus limites
me empurra pra dentro
de mim
e quando eu penso na palavra
fronteira me parece bonita
bonita que nem bandeira
mas prefiro ainda frontera
fronteira
como palavra
significa longe
muito longe
onde existe um moedor de carne
que todos os dias engole vidas humanas
e agora mesmo alguém deixou de existir
porque a belíssima palavra fronteira
existe
bandeira
pra mim
é flâmula ao vento
é tecido sem cor
pano sem significado
é só movimento
pois bem verdade
que bandeira informa fronteira
e eu percebo que a minha
não tem cor
nem significado
e que não a levanto
porque hoje penso
que preguiça de hastear
esse pano pesado
nessa ventania molhada
sou eu cego para os meus limites
não entendendo merda nenhuma
só sobrevivendo
hora após hora
enquanto eu sinto a pressão
as paredes os muros e a vontade de fumar
a vontade de sumir a vontade de ter vontade
as paredes e os muros e quero mudar
mudo
cego
as fronteiras me diminuem
porque eu não aceitei
os meus limites