sábado, 12 de junho de 2021

Despertador

teus olhos invisíveis se prendiam nos meus
teu cheiro inodoro me enuviava e sinopses primitivas me alimentavam um instinto vulgar
teus lábios imaginários deixavam os meus lábios dormentes e secos e salgados de vontade
tua voz que minha mente simulou ecoava aqui dentro como feitiço

o sorriso que você não deu pra mim brilhava com o olhar que não trocamos
e tua língua molhada e macia não rolava na minha boca entreaberta
e não fossem esses dois pontos no espaço que nos representam
distantes como estrelas que só se enxergam pela luz que viaja um universo frio
você morderia a minha boca com leveza e calor

eu preciso acordar e preso nesse sonho que eu já sei que é sonho
peço mais quinze minutos de você comigo
um você quente e saboroso e fictício

só mais quinze
e eu sei
é um sonho

e depois mais quinze e depois mais quinze e mais quantas vezes fossem necessárias pra eu me sentir satisfeito com o sabor do teu pescoço na ponta da minha língua
e durante todos esses intermitentes segundos acordados entre calar o barulho e adormecer de novo
eu sinto a falta do teu calor nos meus lençóis

só mais quinze minutos
e eu matando saudades
sem você saber
que eu matei

segunda-feira, 17 de maio de 2021

O álbum de fotos da morte do Sol

and we cried
over pyramids and castles
centuries of glooming monarchs spent to this overlapse of ruining democracy

and we cried
over sand pyramids and sand castles
stepped a bunch of times by older boys and sunken by the tide to be forever forgotten

and we cried
over thousands and millions of unknown lives
crushed by a billion years of destruction through this failed sense of evolution sponsored by our owners

and we cried
over our minutes passing by over and over
as we stand naked and perpetually immobilized carrying alone a ton of sorrow and shame

and we cried
over the pain and the jynx
licking our bruises as hungry stray dogs living in solitude forever searching its pack

and we've been spinning
laughing in circles and patting our hearts
as we manage to always forget todays to be allowed to live the moment in a minor sense of peace

cruisers of pasture rolling rubber above asphalt
climbers of trees sitting sixteen hours a day in uncomfortable chairs
evolution of the senses and the emotions and the language
leads us to tearing apart in anxiety or panic attacks

and we cried
to smile again

terça-feira, 4 de maio de 2021

Aquário

esse mundo impresso de impressões digitais
encosto no vidro meus dedos enrugados
sem saber se gostaria de deixar a minha impressão
ou se estou tentando limpar as impressões alheias
esfrego o dedo no vidro
que faz aquele barulho bem específico

bato a unha no vidro tentando chamar atenção
e dou um sorriso lembrando das placas
não bata no vidro
aqui o peixe pede a atenção

aqui vario nadar de 
cima a baixo
e baixo a cima
um lado a outro
ou de outro lado a um

impressão minha ou lá fora o mundo gira?
e só esse mundinho aquático fica estático
como o olho do furacão ou o centro do universo
o ponto focal onde efetivamente
nada acontece?

ou será que esse aquário gira também?
e toda essa turbulência é física em prática:
força centrífuga, centrípeta, gravidade, comorbidade, 
força de vontade, autopreservação, Newton e a maçã
matéria puxando matéria, empuxo me apertando de todos os lados

eu já vi o sol nascer tantas mas tantas vezes
quantas vezes mais pra eu me acostumar?
algumas belezas não são acostumáveis
quantas vezes percebi os detalhes da lua
ou o brilho intermitente das estrelas?

aqui é molhado e gelado
e lá fora tudo parece bonito
até que me tiram da água
e eu me debato sem ar

é muito estranho saber o seu lugar
e que não existe futuro, só passado
que se passou e continuou pra sempre
nesse mesmo eu que sigo sendo

sábado, 13 de março de 2021

A primeira última chance pra pensar de novo

tem gente que vê a prisão em suas paredes
eu vejo a prisão em diferentes escalas: da pele à atmosfera
tem gente que fecha os olhos para as imparáveis mortes
eu vejo os pequenos suicídios dentro de cada um

tem gente que experimenta e repete
eu não paro enquanto não passo mal
tem gente que ganha e afirma que lutou com garra
eu apanho dia após dia, segurando um troféu de cobre que também é apontador

tem gente que aumenta
eu diminuo até virar pó

o pó gira em espiral e pinta no chão com os meus cabelos caídos a minha bibliografia
queria dizer que ignoro como um segurança de museu já muito acostumado com as obras de arte
mas fico encarando as dobras e as texturas até que de alguma maneira eu entenda a criação do tempo

anoto os entendimentos numa caderneta e os levo para o confessionário
e espero perdão porque eu não aprendi a voltar e fazer tudo diferente
repetiria o tempo até resolver os últimos detalhes e essa seria a minha missão

tem gente que acredita que nasceu com uma missão
eu ganho e cancelo várias ao longo do dia
queria eu ter uma única missão pra poder focar bem nisso
ao invés de voltar nessa corrente de memórias achando que fiz e não deveria ter feito

já passou
eu relevo
revelo
reitero
já passou

e lembro

já passou
fechei as portas daquela indecisão: escolher não escolher pra não ser responsável
quem não escolhe também é responsável

já passou
mas eu lembro
só não lembro
muito bem

sexta-feira, 5 de março de 2021

Get lost

minhas terras vazias envoltas em margens vazias
parecem tão vastas quanto o próprio universo
o vazio implode nessa névoa clara de partículas inexistentes
eu respiro fundo esse vácuo e me inflo de nada

i got this long way and chains and no provisions
rumbling bubbles and crawling troubles
astounishing views of fantastic probabilities
and this dicotomic sight of nothingness and blackness

i taste this imagination and feel sick
sorrounded by this far away desires
out of fase into this deep deterioration
sadness and despair without names

the personification of evil
touching my shut eyes
cold and humidity in verse
versions of me that i once threw away

got away gotta wait time to spare
esse tempo vazio de ritmos esparsos
pipocando solidões em solavancos
alternando amor e medo em um mundo estranho

tem esse caminho longo
e essas correntes e nenhuma perspectiva
borbulhando e engatinhando
longe de mim seguro de mim

drive me mad as the bumping ride
scares my soul and spirit and core
i correlate this jouney to forever running and running
and not getting anywhere

eu quero longo e seguro
mas não existe seguro
quero calmo e bonito
me quero sobretudo
mas me esqueço
e no vazio
me perco

Covid-19, do I blame you?

impostos encostos insumos consumos desusos trejeitos meu peito pardal
tudo mas tudo mas tudo mesmo
bem

pobreza na mesa tristeza ser brasileiro me deixa cada vez mais insensível
vocês merecem
vocês todos
julgo como juiz
e como juiz
julgo que eles julgaram primeiro

proposta encosta modesta mentira de bolhas multi-fashionistas
multi coloridas multi multidões multi facetadas multi viralizadas
viralizou e morreu
mas passa bem

me causa burburinhos e explosões
me causa intermitentes enjoos e azias e raios e trovões e bombas atômicas na boca do estômago como a última vez que quis querer alguma coisa e isso foi há muito tempo atrás quando eu tinha tempo e o tempo me tinha e tudo era tranquilo como uma hora após a outra e um segundo após o outro e um ano novo que é novo e segue novo até o carnaval e ano que vem tem mais
hoje não funciona assim
hoje nada funciona
só o contador de cadáveres que conta seletivamente subselecionado subnotificado subhumano subindo o céu ou o inferno ou o que haja lá em cima em busca de uma liberdade verdadeira porque aqui é essa gaiola em forma de pele que eu rasgo sem querer sempre incomodado com tê-la em volta de mim
eu julgo
meu juiz tá no prézinho
aponta dedos
"ELE ME BATEU PRIMEIRO!"
meu juiz apanha
meu juiz não tem juízo

foda-se
eles cavaram suas covas
azar

é cova
que
não
acaba
mais

orgulho de - parabéns aos envolvidos - ser
(insensivelmente)                        brasileiro

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O segredo de um segundo sussurrado

e num segundo 
que veio depois de outro 
tão pouco significante
o imperador sobe
ao seu púlpito
e abre seus braços
como asas que abraçariam
o mundo inteiro
ou o amassaria
como uma lata de refri

foi um segundo
como tantos outros
em que a poesia julga
e me julga
e me expõe
como algo melhor
do que eu sou
fui
serei

um frasco de veneno
um baú de moedas
uma bomba atômica
uma única vez
que o mundo
finalmente
acaba
o começo de tudo
antes de Deus e seus sete dias

eu sinto a coroa
me apertando as têmporas
e o manto pesando
meus ombros cansados

eu sinto minha voz
tremendo as paredes
eu sinto minha saliva
fugindo dos lábios
enquanto falo tão alto
quanto a maior das colinas
e tão profundo
quanto o mais escuro poço

essa que um dia eu subi
pra ver o que havia em cima
e esse que um dia eu cavei
pra saber como era morar
ali no fundo

nesse segundo
imperador
sou enorme
sou incêndio
sou ódio
sou raiva

um segundo que passa
como todo outro segundo
e derreto dentro de mim
para contar as esmolas
do meu império

viro água
e com o vento
tremo em silêncio