terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Pai para filho
- Pai, o que é amor? - Perguntou o garoto.
- Hm, como posso te explicar? - Respondeu sorridente para o filho. - Por que quer saber, filho?
- A professora falou sobre amor na aula.
- Isso não é coisa que se ensinem para crianças. - O pai falou para o tio com certo ar de indignação.
- O que você queria que ensinassem? - O tio riu.
- Sei lá. A ler e escrever!
- Pai... O que é amor? - O garoto interveio.
- Bom... Amor é quando uma pessoa decide que a vida não faz sentido. A pessoa que ama perde a noção de vida... - Ficou em silêncio, perdido em sua reflexão.
- Porra, quem diria que teu pai era poeta, hein? - O tio riu, levantou a garrafa de cerveja propondo um brinde.
- Calma. Quieto! Então, filho. Quando uma pessoa ama, perde a noção de vida. A pessoa que está sendo amada, resolve que a pessoa que ama, não merece viver. Então, a pessoa amada resolve matar quem ama.
- Não entendi, pai.
- O amor é um tiro no peito. É a maior dor que um homem pode sentir. É morrer enquanto vive. É respirar o inferno. É se alimentar de ódio. O amor é um tiro no peito. - O pai olhava para a garrafa de cerveja. O tio sentia uma mistura de espanto, medo e desapontamento.
- Não é bem assim, garoto. - O tio deu um sorriso amarelo, tentando disfarçar o momento embaraçoso.
- Pai?
- Quê?
- Eu nunca quero amar.
- Ei, guri. Já falei... Não é bem assim... O amor é bonito! - Disse o tio.
- Não ame, filho... Não ame...
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Loucura e obsessão
Foda-se o mundo, cale a boca e tira essa tua roupa ridícula
- Conte-me sobre você.
- Não tenho o que te contar.
- Fale, por favor...
- Eu sou formada em Artes Visuais, fiz pela diversão, pela maconha, pelo bem da geração hippie. Depois me formei em Administração, logo em seguida Direito. Quando era jovem, me apaixonei pelo meu melhor amigo, ele era lindo, tinha cabelos um pouco compridos e não tinha medo de ninguém. Um dia ele me pediu em casamento. Logo descobri que ele também tinha pedido outra mulher em casamento...
- Que filho da puta.
- É o amor, eu entendo...
- Que amor... - Ela era loira, mas uns fios brancos de cabelo se escondiam no amarelo opáco.
- Daí ele foi morar com ela, perdemos contato. Ele sumiu do mapa. Eu me casei com um político corrupto, interesse da família. Tenho um menino.
- É divorciada?
- Meu filho não ia aguentar um divórcio.
- Quantos anos ele tem?
- Doze.
- Qual é o nome dele?
- Thomas. - Ela estava nua. Ela era tão branca que as veias verdes e azuis saltavam dos seus seios assimétricos. Deve ter sido a garota mais bela que o mundo já viu. Mas as belezas acabam e a vida acaba. O mundo acaba.
- Nome bonito.
- Eu sei.
- E o que você está fazendo aqui?
- Transando com você. Acho que é pra isso que te pago.
- Você se importa de eu conversar com você?
- Claro que não. É a única pessoa que eu converso.
- Não tem amigos?
- Thomas acabou com todas as amizades. Vivo sozinha desde então.
- Ser mãe é complicado. Priva a vida social.
- Não, não o meu filho. Thomas, o filho da puta.
- Quem?
- O que me pediu em casamento.
- E onde ele tá?
- Morreu. Se matou assim que a esposa fez um aborto e fugiu com todo o dinheiro que ele herdou do pai.
- Era bastante?
- Bastante.
- Que merda...
- Se ele tivesse casado comigo estariamos em casa agora. Talvez transando na cozinha, ou talvez viajando pro Caribe numa terceira lua de mel. Ou estariamos cuidando do nosso terceiro e lindo filho. - Eu quase sentia uma lágrima se formando nos olhos azuis claros dela. Mas ela era tão triste que suas feições não mudaram.
- É, você seria mais feliz.
- Foda-se. Eu não teria meu filho. Eu amo Thomas.
- É, tudo tem seu lado bom.
- Foda-se o mundo, cale a boca e tira essa tua roupa ridícula.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Os loucos também amam
Eles também sofrem e também vivem.
Os loucos também são gente.
Os loucos também amam.
E todo mundo ama.
E só me resta uma conclusão:
Todo mundo é louco.
Eu, um são, nadando loucamente em um mar de loucos.
Pedindo piedade e, acima de tudo, felicidade.
Mas como ser feliz sem o amor? Como ser feliz sem a loucura?
Eles sabem se humilhar pelas melhores causas.
O que importa é o amor e todo o sofrimento.
A loucura obsessiva que é o amor.
Que delicioso o amor.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Aftas são filhotes do Diabo
Durante certas noites, eu deitava e simplesmente ficava de boca fechada, esperando que Deus entendesse que naquela noite eu não estava disponível. Isso acontecia ou quando eu estava deitado com uma mulher, o que era bem raro, ou quando eu estava bêbado ou chapado, o que era bem comum, ou quando eu estava com aftas. Aftas, para quem não sabe, são machucados na boca que, devido à acidez da saliva, não se cicatrizam. O ácido vai corroendo a pele machucada, abrindo uma cratera na boca. Aftas não são doenças, não podem ser curadas ou transmitidas, mas com certeza podem enlouquecer um filho da puta de cabeça fraca. A dor é constante, até que ela desapareça, sete dias depois de ela aparecer. E a dor constante não nos deixa comer, nem falar, nem sorrir, nem cuspir. Então o melhor a fazer é ficar de boca bem fechada e esperar que o mundo acabe.
E o Diabo sorri orgulhoso, de pernas cruzadas e com um cigarro na boca olha para Deus e diz: Haha, acho que alguém não rezar para o Papai hoje, não é, Papai?
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
domingo, 26 de dezembro de 2010
Reversibilidade
"Ó Anjo de alegria, já viste a desgraça,
Os soluços, o tédio, o remorso, as vergonhas,
E o difuso terror dessas noites medonhas
Que o peito oprimem como um papel que se amassa?
Ó Anjo de alegria, já viste a desgraça?
Ó Anjo de bondade, já viste o rancor,
As mãos em gesto aflito e as lágrimas de fel,
Quando brande a Vingança o seu apelo cruel
E de nossas virtudes torna-se senhor?
Ó Anjo da bondade, já viste o rancor?
Ó Anjo de saúde, já viste os Delírios,
Que, ao longo das paredes do asilo alvadio,
Como exilados vão em passo tardio,
Movendo os lábios e buscando a luz dos círios?
Ó Anjo de saúde, já viste os Delírios?
Ó Anjo de beleza, as rugas já não viste,
Não viste o medo da velhice e este suplício
De ler esfíngico pavor do sacrifício
No olhar que outrora no saciou a gula triste?
Ó Anjo da beleza, as rugas já não viste?
Ó Anjo de ventura e júbilo e clarões,
Davi da morte se teria levantado
Sob os eflúvios de teu corpo enfeitiçado;
Mas a ti só imploro as tuas orações,
Ó Anjo de ventura e júbilo e clarões!"
Charles Baudelaire