terça-feira, 21 de março de 2017

O haikai de uma nota só

é dia mundial da poesia



vejo minha vida
e todo o universo
interno e externo
a mim
como versos
ilegíveis

enxergo de longe os versos
formando estrofes
amorfas
como linhas de códigos
que definem
o que a vida
é

tudo isso descendo
em velocidade
como um computador
que instala alguma coisa

e traços mutantes
tomam espaço da linha
anterior
aumentando a poesia
num papiro virtual
que não possui começo
nem fim


enter
e letras
e enter
e letras
numa tela ora branca
ora preta
e as letras
ora pretas
ora brancas
enter e letras
e essa mudança de cores
pulsando positivo
e negativo

enquanto eu não leio
uma palavra
sequer

isso me incomoda
a poesia segue
como uma cachoeira invertida

que sei que lá
estão os segredos
e significados
que já dei
à existência

e sabendo o que lá está escrito
saberia de tudo que sei
com consciência

segurando um fio de esperança
como o fio que segura
um balão de hélio

tendo a certeza que uma hora
o balão vai respeitar
tudo o que deve ser respeitado
e vai subir também

a poesia segue
todos os dias
e no dia mundial
a vida segue
misturando vícios e novidades
como versos que se contradizem

todos os dias iguais e diferentes
e todos eles dias mundias de poesia
os eventos todos nesse planeta em crise
dissolvendo em literatura

como se ao próximo segundo
não merecesse o julgamento
de merecer ser ou não ser escrito
mas da inevitabilidade dele
tornar-se história
verso estrofe e poesia

quarta-feira, 15 de março de 2017

Louco motivo

as possibilidades me irritam

é como se eu estivesse esperando mudanças
desde a primeira vez que bati no peito e disse
quero ser foda

o mundo é uma caixinha de surpresas
ao passo que muito depende-se da sorte
e de maturidade e esforço e habilidade

e as coisas são monótonas há muito tempo
o tempo todo trens vindo em minha direção
e me estraçalhando ocasião atrás de ocasião

como se meus pés fossem imãs
e eu não pudesse sair desses trilhos
que só me levam

cansei de apontar pro destino dizendo
eu quero
como uma criança que escolhe um presente

os atropelamentos recorrentes me mostram que nada é fruto do esforço
embora eu ainda me apegue a estes termos
porque a sociedade assim pede

e senão eu deixaria de me esforçar
e esperaria que as correntes de vento
me levassem para o melhor futuro possível

as possibilidades se abrem nos meus olhos
eu gosto delas e ocasionalmente me pego apegado
apaixonado por uma ideia hipotética que está longe do meu trilho

sou atropelado
mas as possibilidades existem
e eu atropelo algumas delas
e agradeço a sorte
e o acaso

como se nenhum dos quilômetros ultrapassados
contassem em nenhum momento
como se o caminho não fosse a causa do presente

as possibilidades me irritam

as estudo como um matemático
e depois como um psicólogo
e só então um arquiteto
e logo um cozinheiro
e um doente
e por fim morador
de rua

as possibilidades não dependem desses estudos
mas de outras possibilidades que dependeram de possibilidades mais antigas
e minha análise profunda nada mais é que justificar a mim mesmo minhas próprias escolhas

possivelmente
nada disso
faz sentido

sigo no trilho
parado
e andando
na maior monotonia
que um atropelamento
pode ter

sábado, 4 de março de 2017

O restaurante

Pratos do dia

A invenção da humanidade
A devoção pela ignorância
Asfalto com tinta e terra e buracos e marcas de pneus
Um pensamento etéreo e vazio como a existência
A esperança de amanhã havermos um prato melhor
O golpe
E a fome

Se esbanjar em frieza enquanto a pimenta abre os poros que vazam e se tornam um com toda a umidade desse ar quente
A fusão da pele com a atmosfera e toda a natureza dissolvida nela mesma
Pairando sobre o vento de ares quentes

Lavar os pratos
Antes que os olhos explodam maiores que a barriga
E o estômago exploda em excesso de carga
A água fria acalma a alma
A esponja que desliza em movimentos circulares me mostra o caminho de ser
A espuma vai e eu
Também

Abandona a cozinha
A memória
E fica com esse desconforto sem motivo
Borbulhando arrotos e julgando que o mundo não está bem

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Por que você parece tão triste?

A fé vaza das mãos como cartas de amor que nunca foram escritas
Explicando que mais uma vez a gravidade impera
Imperatriz de tudo, obriga as revoluções do próprio planeta
E logo estamos girando em confusa mutabilidade incessante e monótona
O mais do mesmo. Sempre o mais do mesmo.
Mas o mesmo é cada vez mais intenso ou mais pior
Porque sempre pode ficar mais pior
E logo o termo se justifica
A fé vaza e logo temos o mais pior nas mãos

E o mais pior vaza também como todo o resto
Se vaza sólido ou líquido não importa
O que importa é que sempre vaza
E se é grande o suficiente pra não vazar
Vazo eu e o mundo muda em revolução

Como se os próprios músculos se tornassem gelatinosos
E as fibras se dissolvem nelas mesmas
Então o que quer que esteja nas mãos já não importa
Se leve ou pesado
Líquido ou sólido
Quem vazo sou eu
Por dentro
Por inteiro
De cima
A baixo

Paciência, esperança e fé se confundem em uma só
Porque nada é certo e confiamos que nada é certo
E confiamos em ilusões sadias que nos fazem suportar o insuportável
Garantia absoluta de resignação diária
Todo dia submisso e misturando respeito e aceitação e estima e amor
Enfrentando possibilidades e probabilidades para encontrar algo certo

Num mundo lotado de pessoas que possuem certezas maiores que a própria inteligência

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

REW

você sabe como eu me sinto
a lenda vive
a lenda viva
e eu não tenho nada a ver com isso

e se você soubesse como eu me sinto
saberia que se houveram lendas
ou especulações
ou qualquer mentira estapafúrdia
eu não tenho nada a ver com isso

todo dia um novo dia e um velho dia e um tempo todo sendo tempo
só que a história é história e o passado também
nada mais que o tempo que passou e não volta mais
uma nova vida pra mim
porque o segundo que vem
é todo novo

muitas lendas vivem
você sabe como eu me sinto

repito

de novo

o tempo

o ontem

e você sabe como
eu me sinto

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Fôlego

parecia um dia perfeito em que o sol brilha e deixa a pele confortável e o ar gelado faz a pele suportar as queimaduras do sol
a pele o sol e o vento e uma única realidade
a que dá errado como um hábito ou um vício repulsivo que confunde os desejos
mais ou menos? mais do mesmo sempre mais sempre menos sempre o mesmo hábito
sempre a saúde em primeiro lugar como se meu corpo envelhecido fosse sinônimo de auto-respeito
sem nome pro casulo grosso que suporta o que vem de fora
os olhos bem abertos e encharcados secando no vento
ou eles bem fechados evitando toda a luz que brilha num mundo branco
é claro que há conforto em saber do desconforto que faz da paciência uma peça nesse infindável jogo de xadrez
preto e branco e preto e branco e preto e branco e o meu corpo envelhecido e a pele gelada e a conformidade sempre a conformidade de existir como consequência fundamental do passado
extirpando ou extinguindo as possibilidades como um extintor de incêndio num corredor vazio
o desejo queima a paciência queima e o fogo me prende de novo numa injustificada alternativa para permanecer minimamente coerente
senil sem os anos com umas histórias que se bem contadas podem ser fascinantes
e se mal contadas são vazias como o corredor que nos leva a corredores de portas fechadas
o dia perfeito e os mesmos caminhos de todos os dias e os mesmos hábitos e vícios dispostos como um quebra cabeças solúvel nas minhas mãos suadas
e geladas
meu labirinto viciado como o vício pelas palavras e os mesmos passos e as mesmas reações e os mesmos dias com sol e chuva e calor e frio e silêncio e o som ruidoso das máquinas e a fumaça e o antepenúltimo degrau que deixa o mundo mais claro
e é claro
que o ar
acaba
e
o
cora
ção
se
perd
e
co m
medo dex
plo
dir

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Hipnose

uma hora tudo fica explicitamente vazio
os pulmões cheios de fumaça são vazios
o cérebro cheio de reflexões está vazio
e todas as interações humanas são vazias

vazias como um oceano
infinito
e cheio
de moléculas distintas
que dependem umas das outras

tudo irrelevante
e um fio segura a própria vida
pesada e inerte
que balança como um pendulo
e nos confunde com esse vai e vem
que mais parece uma ilusão
de novos eventos viciados

sem solução
mas a esperança
de nunca escorregar

a vida humana reduzida a um único
objetivo: se segurar tão forte quanto
possível sob um título
tão vazio e tão cheio quanto todo
o resto: vencer

nada é dicotômico
e o universo se repete todos
os dias
enquanto achamos que fazemos
bem ou mal e certo ou errado
e é tudo sobre as escolhas
que fazemos

as escolhas são mentiras

é decidir se vai usar a força
nos dedos ou nos tríceps
desde que nunca
mas nunca
caia

porque a queda
é inadmissível